Primeiro dia do ano. Dia anterior de praia, sol e cerveja. O primeiro dia do ano é chuva tempo integral. Casa de praia, amigos e preguiça da comilança do dia anterior. Pessoal ainda dormindo. Tenho sono leve. Olho pela sala e nada pra fazer. Não quero ligar a TV pra não acordar o pessoal. Embaixo de uma pilha de jogos de PS2 encontro um volume encadernado de uma minissérie que tinha lido vagamente no Omelete. “Ultra”. Nome óbvio pra uma revista de super heróis. Começo a folhear, ler e, de repente, vejo que a revista acabou. Acho que se um dia o editor da Caras fosse um nerd aficcionado por quadrinhos, Sex and the City e filmes europeus, talvez escrevesse o roteiro dessa HQ. O clichê do nome inicial se esvai logo nas primeiras páginas, com um traço original, sutil e, o mais legal, verossímil. São pessoas comuns no desenho. Comuns, e com superpoderes.
O plot inicial é simples: numa sociedade em que existem vários superseres, a maior parte destes prefere usar seus poderes como num trabalho qualquer, batendo cartão e cumprindo o horário básico de 8 horas diárias. É um emprego comum ser um super em Spring City. E o comum reflete-se no dia a dia das personagens principais. A HQ viaja nos diálogos incisivos e humanos, sendo que a ação deixa de ser foco principal para venda para tornar-se necessidade no desenvolvimento dos personagens. Vamos dizer que é um olhar diferente sobre um mesmo assunto. Um ponto de vista de um novo ângulo. E essa é a grande sacada: falar do comum usando personagens que, teoricamente, seriam incomuns. Entretanto são pessoas que, apesar de conseguirem atravessar paredes, voar e serem invulneráveis, parecem ter um coração de carne e sangue embaixo de todo aquele uniforme berrante e marketing para auto-promoção.
Os desconhecidos Luna Brothers conseguiram deixar uma HQ que poderia ser permeada por situações óbvias com uma cara de papo de bar com amigos. E nisso envolveram grandes situações sobre o universo feminino como amor, solidão, lesbianismo e até convivência familiar de uma maneira leve, descontraída e até tocante. Fuçando no site dos caras, vi que eles estão com uma nova revista chamada “Girls”. Vou procurar saber mais sobre ela.
“Ultra” vale cada centavo que o meu camarada Shoiti usou pra comprar. E obrigado ao Nilmar por ter sido Mãe Dinah e previsto que iria chover logo no primeiro dia do ano.




