
Quando se sente necessidade de mudanças, pode ter certeza que alguma coisa mudou na vida da gente. No positivo ou no negativo, alguma coisa fez você sair de sua zona de conforto e querer sair do marasmo. Isso é inerente ao ser humano. Ficar dentro da caixa é privilégio apenas de quem gosta de ser funcionário de prefeitura e, apesar de invejar um pouco o contra-cheque deles e a gama enorme de privilégios (coisa que eles mesmo nem muitas vezes tem ideia), não me adapto ao rebanho. Já tentei. Está na minha natureza correr atrás de coisas o tempo todo, mesmo não sabendo exatamente do quê. Aí está a explicação natural do porquê ainda não fiquei rico mesmo lendo os livros do Shinyashiki: meu foco é difuso. Eu gosto de coisas muito diferentes e muitas vezes ganho, outras perco. Coisa de quem sonha demais.
A minha zona de conforto foi mexida por conta de um presente atrasado do meu aniversário pelo meu grande amigo Nilmar. Frenesi Polissilábico, o novo livro de Nick Hornby (será que é novo ainda? Ah, nem vou googlar a esta hora. Deixa eu achar que estou contemporâneo) é um apanhado de textos escritos para a revista The Believer criticando livros clássicos e contemporâneos, mas com aquele sarcasmo ácido que caracterizam, aparentemente, até sua índole. Apesar de o que ele cita lá eu não conhecer uns 98%, não devo ter lido nem 99,9% do que ele indica como bom (sendo que uns 90% deles nem foram lançados no Brasil, o que me ajuda muito a emular uma resposta coerente) a coluna é super interessante e divertida do ponto de vista de escrita. Ele cita livros contemporâneos extremamente interessantes (editoras daqui deveriam ficar de olho no que ele comenta, alguns parecem muito bons…), destrincha clássicos e mostra um pouco de seu lado mais pessoal através de auto-crítica, erros de continuidade (foi muito legal ver que autores do porte dele também se repetem…), demonstra uma emoção singela e realista ao falar de seu filho autista, e faz piada do ambiente de trabalho e da própria coluna. Pô, fica difícil não rir de alguém que está comentando David Copperfield, passa para algum autor blasé britânico, comenta Y, the Last Man e começa uma coluna da seguinte maneira:
“Já faz um tempo que estou para ler um livro sobre críquete, com o objetivo único e exclusivo de encher o seu saco, caro leitor. Cheguei a pensar em ler apenas livros de críquete este mês inteiro, mas então me dei conta de que isso seria um prato cheio para você parar de ler a coluna; assim, é preciso dar uma passada pelo críquete para chegar até Tchekhov e Roddy Doyle. Estou presumindo aqui que poucos leitores desta coluna assistiram a uma partida de críquete e, caso tenham assistido, é quase certo que tenham ficado confusos e estupefatos: afinal, trata-se de um jogo que, em sua mais pura forma (já rolam por aí várias versões fajutas) dura cinco dias e muito frequentemente acaba em empate: cinco dias não é o bastante para dar conta de tudo que precisa ser feito em uma partida de críquete, especialmente porque não dá pra jogar na chuva.”
Eu lendo isso no ônibus e comecei a rir ali mesmo, no coletivo lotado. Sensacional! Esse esquema bate-papo é algo que eu sempre gostei de ler, mesmo antes de conhecer o trabalho do Hornby. Aliás, conheci como muita gente, assistindo Alta Fidelidade, um dos filmes mais divertidos já feitos e que consegue ser igual ao livro e, ao mesmo tempo, completamente diferente. O diretor, Stephen Frears, conseguiu imprimir sua própria pegada usando o texto clean e direto de Hornby, o que resultou em provavelmente uma das adaptações-pop mais criativas já feitas no cinema. Fora que tem o John Cusack, um dos poucos atores que me faz ver um filme só pela presença. Enfim, valeu a pena esperar o presente do Nil, mesmo que ele tenha comprado em junho e só me entregado no final de setembro. Pelo menos ele não cumpriu o ultimato que me fez, dizendo que se eu não fosse buscá-lo iria entregar para o primeiro mendigo nerd que encontrasse.
Fora isso, estou reassistindo Breaking Bad na ordem, já que vi episódios espaçados na Sony. Não tenho a menor dúvida de que é um dos melhores seriados já feitos nos últimos tempos, tanto pelo tema (professor de química descobre que está com câncer de pulmão e tem pouco tempo de vida, portanto decide produzir metanfetaminas para deixar dinheiro para a esposa, que está grávida, e para o filho que tem problemas físicos), fora que a atuação-monstro de Bryan Cranston por si só já vale a conferida. Um dos atores mais interessantes dessa época, já esbanjava talento em Malcolm in the Middle, outro seriado que deixa saudade, pois Breaking Bad foi cancelado na segunda temporada, mesmo com as críticas extremamente positivas e que seu ator principal tenha ganhado o Emmy deste ano. Coisas de Pushing Daisies que só o mercado televisivo explica…
Também estou colocando em ordem a terceira temporada de Battlestar Gallactica, que começou muito, muito bem mesmo. Apesar de só ter os nomes dos cilônios e algumas pequenas coisas relacionadas ao seriado da década de 80 é uma das grandes referências em ficção científica atualmente. Bem produzido, com atores de talento, uma narrativa fluente e com tramas paralelas que não cansam, funciona muito bem no formato. E entre as outras séries que recomeçaram e que acompanho, ainda não consegui ver Fringe nem House. Outra que começou interessante foi FlashForward mas, apesar do ritmo ágil para o primeiro episódio, não consegui comprar totalmente ainda, porque tenho a impressão de que a qualquer minuto o John Locke vai aparecer dizendo que a ilha disse para ele o que fazer.
E não vi filme. Aliás, revi Onze Homens e um Destino na Warner, dublado (aliás, essa ideia de enfiar guela abaixo a dublagem encheu o saco. Pô, tanta tecnologia nas mãos e tanta dificuldade para deixar que o público escolha se quer legenda ou vozes que nada se parecem com as originais?) mas isso foi sábado passado. Esse final de semana é prolongado, portanto devo ver mais algumas coisas. E certamente vou dar uma revisitada em algumas frases do Frenesi Polissilábico, lembrando que se eu fosse um pouquinho mais preguiçoso, provavelmente iria passar pela região da Sé e ouviria aquele senhor de barba e cabelo comprido, todo sugismundo com aquela camiseta rasgada e chinelos carcomidos, citando os motivos pelos quais prefere os textos de Kurt Voneguth a qualquer Best-Seller contemporâneo. Recomendado é pouco.
Nota Mental: Tirar Team America da cabeça ao assistir GI Joe.
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