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Arquivo da categoria: Livros

Medo e Náusea


Nestas duas últimas semanas, me deparei com duas versões diferentes de vampiros, uma no livro Noturno (The Strain é um nome muito foda, pena que não há uma palavra em português que dê a força necessária na tradução) e outra num filme que ainda não foi lançado por aqui chamado Daybreakers.

Não sei se foi uma cagada editorial entregar logo de cara a ameaça principal de Noturno, do DelToro e Chuck Hogan, afinal qual capitalista olhos de cifrão não vai querer uma fatia do público da Stephanie Meyer? O caso é que essa entrega meio que deixa o livro um pouco menor do que poderia ter sido caso a pessoa pegue o livro do nada e comece a ler. Na verdade, se não me engano, o próprio DelToro andou dando umas declarações dizendo que a versão dele para os sugadores de sangue era diferente e blablabla. É diferente? É. É original? Pra mim, não.

Noturno é um emaranhado de pequenas coisas que já existem no mercado, desde Extermínio até Blade 2, do próprio DelToro. A impressão que ficou comigo é que ele já tinha essa ideia do livro antes, mas acabou não tendo a oportunidade de lançar, aí outras oportunidades apareceram no decorrer da carreira e ele foi aplicando um pouco do que imaginava em outros projetos, e é um livro cheio de personagens-clichês, e não esperar isso do DelToro, não. Sei lá, não é um livro nem um pouco ruim, é muito legal, mas não chega a ser inovador. É a primeira parte de uma trilogia, então vamos ver o que acontece nos demais. Lerei certamente e, se você não conhece nada do livro, gosta do tema e não é um devorador de filmes de terror, pode comprar sem medo. É bem escrito e tem um ritmo ágil pra caramba. Talvez eu tenha esperado demais, sei lá. O que sei é que é um roteiro pronto, e que dará um puta filme. Se tem dúvidas, veja o trailer para o lançamento do livro, isso sim uma ótima ideia.

Daybreakers traz novidade atrás de novidade sobre o tema. Aliás, uma grata surpresa em termos de roteiro e direção dos irmãos Spierig (meu bom amigo zumbi diz que os caras já fizeram coisa boa antes, mas eu nunca havia ouvido falar deles…), que trazem ideias originais e dão um novo parâmetro sobre o tema unindo coisas que já foram faladas antes, só que de um jeito criativo e diferente. Nem é legal falar muito sobre o filme, mas o trailer mostra o tema básico, portanto se quiser saber do que se trata, clica aí. Independente disso, Daybreakers já é uma das grandes surpresas do ano pra mim, mantendo o que eu e alguns amigos chamamos de Regra-Hawke, ou seja, de que Ethan Hawke ainda não se meteu num filme que fosse ruim. Destaque para as cenas de ação e suspense muito bem coreografadas, além de um tom de azul forte para enaltecer as cenas em ambientes noturnos. Enfim, vale muito a pena.

O livro de DelToro e o filme dos irmãos Spierig cumprem seus objetivos: o de trazer a casta dos filhotes de Drácula ao lugar onde pertencem: o de seres que devem trazer medo e náusea, e não suspiros.

 
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Publicado por em 14/02/2010 em Livros, Uncategorized

 

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Nostalgia e educação

clubedofilme

Clube do Filme é um relato coerente, verossímil, realista e sensível da evolução do pai em meio ao turbilhão de informações que é a adolescência.


Sou um cara preocupado demais quando o assunto são filhos. Não se se a profissão me deixou assim ou se sou um cara que complica as coisas mesmo. O fato é que acho que tem tanta porcaria sendo comercializada (principalmente na TV aberta) e não estou falando apenas de produtos de comerciais, não, estou falando de conteúdo, de programação e da banalização do ser humano. Pegue qualquer programa diário e tente não encontrar alusões e brincadeiras relacionadas a sexo, exposição da mulher como objeto ou notícias relâmpago de corpos estendidos no chão. Não sugiro um controle, mas que há um descontrole, isso há. Me dá pena e vergonha ver que a TV decaiu tanto assim, tudo em função da audiência. Enfim, por estar ali, no meio de tudo isso, sou um cara preocupado demais.  Portanto gosto muito de ler alguma coisa que tenha como foco principal o relacionamento entre o pai e filho, desde que seja algo coerente, verossímil,  realista e com sensibilidade.

São algumas das características do excelente O Clube do Filme, de David Gilmour. O autor nos narra uma época em sua vida que envolve problemas profissionais, financeiros e a dificuldade em lidar com o crescimento do filho adolescente, que não consegue ter uma afinidade real com a escola de maneira alguma, por mais que os pais fossem participativos, o garoto simplesmente não se adaptava. Aí o autor, que é um profissional de comunicação e crítico de cinema, decide ser radical: durante um ano o filho vai ficar fora da escola, mas eles terão de ver 3 filmes por semana escolhidos por ele.

Em uma atitude arriscada e crítica, Gilmour decide relacionar as fases de crescimento do filho a filmes que pudessem, pelo menos, passar alguma informação palpável para o rapaz, e a triagem varia desde clássicos como Assim Caminha a Humanidade até pérolas cult de ação, como Amor à Queima Roupa. E com uma sinceridade extrema (até demais) o livro nos coloca no meio da situação que envolve namoro, sexo, drogas, emprego, música, entre outros tópicos críticos no crescimento de adolescente e no desenvolvimento contínuo de um adulto.

O problema é querer assistir tudo aquilo que ele nos apresenta (não devo ter visto nem 10% dos filmes comentados ali…), pois ele consegue realmente nos fazer ter vontade de ver a maior parte dos filmes descritos ali. E apresenta, no final, uma listagem de todos os mais de 100 filmes comentados no livro. O que não é uma má ideia a longo prazo. Recomendadíssimo!

PS: Usando o que Nick Hornby me ensinou: o livro tem uma contra-capa direta e palpável, que usa 3 citações (do New York Times, Publishers Weekly e da Newsweek) para autenticar a boa publicação.

“David Gilmour, crítico de cinema desempregado e com o dinheiro contado, vivia uma fase complicada. Além disso, o filho de 15 anos colecionava reprovações em todas as disciplinas. Diante da falta de rumo daquele estudante perdido e despreparado, uma proposta paterna e radical: o garoto poderia sair da escola – e ficar sem trabalhar e sem pagar aluguel – desde que assistisse toda semana a três filmes escolhidos pelo pai, e com o pai. Assim surgiu O Clube do Filme…”

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  • Editora: Intrínseca
  • Autor: DAVID GILMOUR
  • ISBN: 9788598078434
  • Origem: Nacional
  • Ano: 2009
  • Edição: 1
  • Número de páginas: 240
  • Acabamento: Brochura
  • Formato: Médio
 
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Publicado por em 09/11/2009 em Livros

 

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Mendicância nerd e o Frenesi Polissilábico

frenesi

Quando se sente necessidade de mudanças, pode ter certeza que alguma coisa mudou na vida da gente. No positivo ou no negativo, alguma coisa fez você sair de sua zona de conforto e querer sair do marasmo. Isso é inerente ao ser humano. Ficar dentro da caixa é privilégio apenas de quem gosta de ser funcionário de prefeitura e, apesar de invejar um pouco o contra-cheque deles e a gama enorme de privilégios (coisa que eles mesmo nem muitas vezes tem ideia), não me adapto ao rebanho. Já tentei. Está na minha natureza correr atrás de coisas o tempo todo, mesmo não sabendo exatamente do quê. Aí está a explicação natural do porquê ainda não fiquei rico mesmo lendo os livros do Shinyashiki:  meu foco é difuso. Eu gosto de coisas muito diferentes e muitas vezes ganho, outras perco. Coisa de quem sonha demais.

A minha zona de conforto foi mexida por conta de um presente atrasado do meu aniversário pelo meu grande amigo Nilmar. Frenesi Polissilábico, o novo livro de Nick Hornby (será que é novo ainda? Ah, nem vou googlar a esta hora. Deixa eu achar que estou contemporâneo) é um apanhado de textos escritos para a revista The Believer criticando livros clássicos e contemporâneos, mas com aquele sarcasmo ácido que caracterizam, aparentemente, até sua índole. Apesar de o que ele cita lá eu não conhecer uns 98%, não devo ter lido nem 99,9% do que ele indica como bom (sendo que uns 90% deles nem foram lançados no Brasil, o que me ajuda muito a emular uma resposta coerente) a coluna é super interessante e divertida do ponto de vista de escrita. Ele cita livros contemporâneos extremamente interessantes (editoras daqui deveriam ficar de olho no que ele comenta, alguns parecem muito bons…), destrincha clássicos e mostra um pouco de seu lado mais pessoal através de auto-crítica, erros de continuidade (foi muito legal ver que autores do porte dele também se repetem…), demonstra uma emoção singela e realista ao falar de seu filho autista, e faz piada do ambiente de trabalho e da própria coluna. Pô, fica difícil não rir de alguém que está comentando David Copperfield, passa para algum autor blasé britânico, comenta Y, the Last Man e começa uma coluna da seguinte maneira:

“Já faz um tempo que estou para ler um livro sobre críquete, com o objetivo único e exclusivo de encher o seu saco, caro leitor. Cheguei a pensar em ler apenas livros de críquete este mês inteiro, mas então me dei conta de que isso seria um prato cheio para você parar de ler a coluna; assim, é preciso dar uma passada pelo críquete para chegar até Tchekhov e Roddy Doyle. Estou presumindo aqui que poucos leitores desta coluna assistiram a uma partida de críquete e, caso tenham assistido, é quase certo que tenham ficado confusos e estupefatos: afinal, trata-se de um jogo que, em sua mais pura forma (já rolam por aí várias versões fajutas) dura cinco dias e muito frequentemente acaba em empate: cinco dias não é o bastante para dar conta de tudo que precisa ser feito em uma partida de críquete, especialmente porque não dá pra jogar na chuva.”

Eu lendo isso no ônibus e comecei a rir ali mesmo, no coletivo lotado. Sensacional! Esse esquema bate-papo é algo que eu sempre gostei de ler, mesmo antes de conhecer o trabalho do Hornby. Aliás, conheci como muita gente, assistindo Alta Fidelidade, um dos filmes mais divertidos já feitos e que consegue ser igual ao livro e, ao mesmo tempo, completamente diferente. O diretor, Stephen Frears, conseguiu imprimir sua própria pegada usando o texto clean e direto de Hornby, o que resultou em provavelmente uma das adaptações-pop mais criativas já feitas no cinema. Fora que tem o John Cusack, um dos poucos atores que me faz ver um filme só pela presença. Enfim, valeu a pena esperar o presente do Nil, mesmo que ele tenha comprado em junho e só me entregado no final de setembro. Pelo menos ele não cumpriu o ultimato que me fez, dizendo que se eu não fosse buscá-lo iria entregar para o primeiro mendigo nerd que encontrasse.

Fora isso, estou reassistindo Breaking Bad na ordem, já que vi episódios espaçados na Sony. Não tenho a menor dúvida de que é um dos melhores seriados já feitos nos últimos tempos, tanto pelo tema (professor de química descobre que está com câncer de pulmão e tem pouco tempo de vida, portanto decide produzir metanfetaminas para deixar dinheiro para a esposa, que está grávida, e para o filho que tem problemas físicos), fora que a atuação-monstro de Bryan Cranston por si só já vale a conferida. Um dos atores mais interessantes dessa época, já esbanjava talento em Malcolm in the Middle, outro seriado que deixa saudade, pois Breaking Bad foi cancelado na segunda temporada, mesmo com as críticas extremamente positivas e que seu ator principal tenha ganhado o Emmy deste ano. Coisas de Pushing Daisies que só o mercado televisivo explica…

Também estou colocando em ordem a terceira temporada de Battlestar Gallactica, que começou muito, muito bem mesmo. Apesar de só ter os nomes dos cilônios e algumas pequenas coisas relacionadas ao seriado da década de 80 é uma das grandes referências em ficção científica atualmente. Bem produzido, com atores de talento, uma narrativa fluente e com tramas paralelas que não cansam, funciona muito bem no formato. E entre as outras séries que recomeçaram e que acompanho, ainda não consegui ver Fringe nem House. Outra que começou interessante foi FlashForward mas, apesar do ritmo ágil para o primeiro episódio, não consegui comprar totalmente ainda, porque tenho a impressão de que a qualquer minuto o John Locke vai aparecer dizendo que a ilha disse para ele o que fazer.

E não vi filme. Aliás, revi Onze Homens e um Destino na Warner, dublado (aliás, essa ideia de enfiar guela abaixo a dublagem encheu o saco. Pô, tanta tecnologia nas mãos e tanta dificuldade para deixar que o público escolha se quer legenda ou vozes que nada se parecem com as originais?) mas isso foi sábado passado. Esse final de semana é prolongado, portanto devo ver mais algumas coisas. E certamente vou dar uma revisitada em algumas frases do Frenesi Polissilábico, lembrando que se eu fosse um pouquinho mais preguiçoso, provavelmente iria passar pela região da Sé e ouviria aquele senhor de barba e cabelo comprido, todo sugismundo com aquela camiseta rasgada e chinelos carcomidos, citando os motivos pelos quais prefere os textos de Kurt Voneguth a qualquer Best-Seller contemporâneo. Recomendado é pouco.

Nota Mental: Tirar Team America da cabeça ao assistir GI Joe.

 
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Publicado por em 09/10/2009 em Livros, Textos

 

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A vida de Pi

(publicado originalmente em jan/07)

Passo cerca de 3 horas por dia em meios de transporte: lotação/metrô/ônibus/ônibus/metrô/lotação. Não é fácil ficar de pé praticamente o tempo todo, vendo a mesma paisagem sem graça e fazendo o mesmo trajeto diariamente. As pessoas parecem diferentes, mas não sei. Na verdade, todo mundo nos meios de transporte é meio parecido. Pessoas de instante, nem sei se já vi antes.

O fato é que isso consome mais que 10% do meu dia, o que não é agradável no sentido de utilidade do ser. Ficar paradão lá, pensando na vida, ou nem pensando em nada, ou se esquivando e dando licença o tempo todo. Não é divertido. A gente tem que ocupar a cabeça com alguma coisa. Algo visceral, que nos faça viajar, ir pra outros lugares absurdos. Enfim, passar o tempo ocioso.

Decidi ocupar esse meu tempo lendo. Acho que pelo meu trabalho me dar à oportunidade de ficar fuçando na internet, não tenho o menor interesse em ler a Veja ou a Isto é. Na verdade, tô meio de saco cheio dessas publicações. Parece tudo armado. Jornalismo factual-financeiro. O fato vira verdade a partir da moeda na conta corrente.

Eu leio livros. E tenho lido muito, muito mesmo. Me lembro dos meus primeiros contatos lá pelos idos da década de 80. Aquela coisa dos professores enfiarem guela abaixo Graciliano Ramos e Machado de Assis. Entendia “lhufas”, mas me saía bem nas provas.

Mas meu primeiro livro inesquecível não foi um classicão tétrico desses aí. Foi mais pop. E cintilou como vagalume na minha cabeça por muito tempo: “O Mistério do Cinco Estrelas”, de Marcos é Rey. Devorei o livro da maneira que pude. Suspense puro pra adolescente, dosagem correta e bons diálogos. Rápido e rasteiro. Apaixonante. E foi meu primeiro real contato com a literatura.

Nem preciso dizer que fui atrás de outros da famigerada e inesquecível Coleção Vagalume. Entre meus favoritos estão “As Aventuras de Xisto”, “O Caso da Borboleta Atíria” e aquele que seria o precursor de muitas viagens de pensamento da minha vida: “Spharion”. Preciso reler tudo isso urgentemente.

Depois que minha sede por livros despertou, nunca mais parou. Nem os altos preços refrearam minha insana vontade literária. Li “Fernão Capelo Gaivota” naquela época e nunca iria imaginar que, anos depois, voltaria atrás em meus comentários de “puta livro chato pra caralho”. Fernão virou tatuagem. Obrigatório.

A maior parte dos livros nos faz querer chegar logo ao final para saber o que ocorre. Terminar é o objetivo. Deglutir a informação e tirar algo dela no inconsciente. Não conheço uma pessoa que tenha não tenha dito “Esse livro é tão bom… não espero ver a hora de terminar!”. Eu era um desses.

Até uma semana atrás.

O que acontece quando não se quer terminar um livro. A história é envolvente o suficiente para que você não queira que ela acabe. Foi um sentimento esquisito e ultrajante. Eu, leitor ávido, não queria terminar um livro. Um absurdo. Mas quanto mais eu lia, mais me entristecia, pois fui tocado no coração pelo texto claro, limpo e sem rodeios de um cara que eu nunca tinha ouvido falar. Na verdade, nem sei como esse livro veio chegar até mim. Tudo bem, eu comprei, mas por quê? Qual motivação me fez aumentar alguns dólares à conta bancária do Sr. Yann Martel? Sinceramente, não me lembro.

A história de Piscine Molitor Patel, ou simplesmente PI me tomou por completo. Desde o começo da narrativa, senti uma tristeza de saber que o livro um dia terminaria. Li devagar. Devagar mesmo. Lia com esmero cada página, cada parágrafo e colocava minha imaginação para funcionar para que o tempo parasse naquela seqüência. Eu ri sozinho na lotação, me emocionei no metrô e me peguei sozinho no fundo do ônibus com olhos marejados ao terminar. Como um livro que não fala nada sobre violência, suspense, tiroteiro, pinturas raras, sexo, grandes teorias da conspiração, alienígenas, espíritos e tudo aquilo que vemos nas prateleiras das livrarias todos os dias pode ter feito isso? Um livro que fala de morte para celebrar a vida. Que fala de dor para enaltecer o amor. Que fala de tigres para mostrar os animais que podemos nos tornar?

E que fala de Deus no exato significado da palavra? Deus para judeus, brancos, negros, pardos, russos, muçulmanos, árabes. Deus sentimento?

Eu gostaria de não ter lido “A Vida de Pi”. Gostaria de, mais uma vez, sentir o que senti durante essa semana. E, quem sabe, ter esse sentimento pra toda a vida.

Compre aqui.

Saiba mais:

“A Vida de Pi” na Wikipédia.

“A Vida de Pi” no Orkut.

 
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Publicado por em 12/09/2009 em Livros

 

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Ausência de Anita

(publicado originalmente em set/09)

Se você passa por esse blog frequentemente, sabe que tenho uma pré-disposição pra livros que viram filmes. Gosto do comparativo porque são duas coisas que me interessam: o texto por si só e como um diretor interpretaria isso visualmente. Na verdade, vi resultados excepcionais e aberrações financeiras, além daqueles que parecem ter medo de errar e constróem um filme calcado no básico. O que aprendi com essas adaptações é que ousar tem variáveis diversas, afinal, são duas visões distintas, uma textual e outra visual e nem sempre uma equipe técnica de umas 10 pessoas tem a sensibilidade de um escritor.

Quem comentou inicialmente esse livro foi o Jr, velho amigo de um grupo de cinema do qual faço parte. Quando o assunto veio em pauta, a adaptação em si, ele logo soltou “esse eu quero ver. Se no filme metade do que rolou no livro, vai ser uma baixaria só…”. Provavelmente minha animalidade se sobressaiu ao meu modus operandi default e comprei o livro no dia seguinte. Li com gosto, mas acho que o fato de ter me tornado pai me faz ver as coisas de uma perspectiva diferente. Fiquei mais sensível pra determinados assuntos e sempre coloco minha filha em primeiro plano quando o subject é desenvolvimento feminino. Na verdade, me sinto meio perdido com essa adolescência precoce de hoje (minha filha tem 6, mas em alguns momentos age como se tivesse 14…) e isso me assunta deveras. Ao ler “100 escovadas antes de ir pra cama” me vieram centenas de imagens do crescimento da minha filha e, principalmente, como pode ser difícil pra ela vir a enfrentar esses problemas e como a mídia hoje banaliza assuntos teoricamente sérios como sexo e família. Entendeu o contrasenso aí? A leitura poderia ser apenas mais um livro com teor sexual, mas não, virou assunto de preocupação. Tudo isso porque eu trabalho com a merda da mídia, e todo dia me preocupo um pouco mais.

Que bosta, era tão legal curtir um livro desses como o Jr.

O livro é basicamente um apanhado de pretensas oportunidades sexuais de uma garota chamada Melissa e de como uma garota sem direcionamento familiar pode confundir as coisas nesse assunto. Mas, talvez pela fragilidade textual e inexperiência da autora, o livro é muito mais superficial no assunto em si do que nas descrições sexuais dos atos em si. A autora parece querer chocar de todas as maneiras possíveis. E acabe deixando o lado familiar/evolutivo meio que pra segundo plano, o que explica o sucesso de vendas no mundo todo. O tema central é confusão que uma adolescente pode ter em seus primeiros passos em relação ao sexo e como a família é importante nesse processo. Ponto. Mas o que literalmente salta aos olhos é a lambaça sexual que a garota se propõe nessa busca. O que gera o inevitável “será que ela fez tudo isso mesmo?”. Não duvido que ela tenha feito, mas esse é exatamente o maior problema do livro: sua exaustão em querer ser polêmico, afinal o que essa garota fez em 1 ano é o equivalente a uma vida para muitas mulheres. E é aí que reside a grande sacada financeira do livro: o “lolitismo”. Curiosidade masculina pela perversão em si, e curiosidade feminina pela experiência não adquirida.

O filme é o oposto do livro. Ele já começa expondo dúvidas e explorando muito mais a ausência familiar do que o ato sexual por si. Existe ali uma inversão de valores extensa e profícua de que o livro tem uma mensagem além do sexo em si. O que Melissa Panarello não conseguiu exemplificar em palavras, o diretor Luca Guadagnino conseguiu montar visualmente. As dúvidas de sua protagonista estão lá, na mente e no corpo, na família e nos amigos. E essa vantagem linguística talvez seja o que fez com que o filme não emplacasse no mundo, pois o polêmico deu lugar à dúvida e o erotismo deu lugar ao desconforto da adolescência. A Melissa do filme não é vulgar, tampouco sabe o que está fazendo. Ela utiliza uma ferramenta que foi lhe imposta para dar vasão aos seus desconfortos como mulher, amiga e filha. A superficialidade do livro aqui é utilizada como momento de reflexão, de compaixão até. A interpretação de Maria Valverde não tem intenção de ser Mel Lisboa, ao contrário, prima-se pela inocência até nos momentos mais fortes.

Mas só sendo pai de uma garota pra entender dessa maneira. O que assola nossas mentes diariamente não é o fato de que um dia nossa filha vai perder a virgindidade, mas sim como vai ser, porque é um assunto que deve ser tratado com maturidade e amizade, pois é bem mais complicado do que para um garoto. E a mídia não ajuda. E o filme é um retrato bem particular do que pode acontecer se não estivermos presentes no dia a dia, não como pais chatos e inconvenientes, mas sim como amigos interessados. Queria poder curtir o livro e até o filme com outros olhos, mas a paternidade muda a gente.

Tá vendo? Saudades de ler um livro desses com os olhos do Jr. E felicidade por não ver um filme desses com olhos de “crítico de cinema”.

 
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Publicado por em 11/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 

Homens de verdade não matam coiotes


“True men don’t kill coyotes”. Acredito que este tenha sido meu primeiro contato com os Chilli Peppers. 4 caras que saíam de dentro de um cercadinho cheio de areia. Um clipe tosco para os padrões atuais e, pensando melhor, até para os anos 80. Mas aquela energia, aqueles movimentos e, principalmente, aquela batida funk me fizeram vidrar na telinha e, consequemente, procurar mais coisas sobre quem seriam aqueles. E algo mágico aconteceu naquele dia: no meio de todo o Ramones, Replicantes, Inocentes e Plebe Rude, eu sabia qual banda eu gostaria de ser quando crescer.

Cresci e nada de banda aconteceu. Mas os Red Hot mantiveram-se estáveis, na linha de frente da minha estrutura musical. Muita coisa aconteceu de lá pra cá, mas meu conceito sobre a banda nunca mudou: eram os caras mais elétricos do rock’n roll, e nunca o deixaram de ser. E desde “Uplift Mojo Party Plan”, nunca deixei de comprar um disco dos caras, mesmo o insosso (para os padrões da banda) “One Hot Minute”. O estranho é que nunca havia olhado para eles pela perspectiva do vocalista, mas sempre pela do Flea, o baixista. Ele, em tudo o que vi ao vivo ou em clipes sobre a banda, era energia pura, desenfreada, em ebulição. A primeira vez que ouvi o termo “estilingada” sobre como se faz um determinado movimento num contra-baixo, foi por causa dele. E as apresentações? Ah, as apresentações. Lança-chamas nas cabeças, meias nas partes íntimas, sempre algo novo. Era impossível ficar parado, E, mesmo o vocalista fazendo aqueles movimentos estranhos com o corpo, o espetáculo era do baixista. Para mim, a história do Red Hot era escrita por linhas tortas através de Flea, mas depois de ler a biografia de Anthony Kieds, a mudança do foco foi tão radical que, se eu encontrasse um dia com ele, pediria desculpas.

Uma banda não existe sem uma razão de ser. Você pode até meter a dinheirama no meio, mas uma banda só existe com um propósito. É o combustível, o sangue, o tesão da coisa toda. Sem ele, uma banda fatidicamente vai pro espaço, seja ela boa ou não. E se eu já pensava assim antes, depois de ler “Scar Tissue” isso tudo fica mais evidente.

A viagem toda começou com Kieds, e vai terminar com ele, se um dia terminar. Desde seu familiar primeiro encontro com as drogas, suas primeiras aventuras sexuais e deslizes na adolescência, o livro chega a ser encantador. O cara se fudeu pra caramba. Muito. Muito mesmo. Tudo causado (e assumido) por ele mesmo durante o livro todo. Mas o palco em que sua vida se expandiu é tão intenso e frenético que você torce por ele, pela sua melhoria, pela sua salvação perante as drogas. Mas se há um grande mérito no livro é esse mesmo: a mensagem positivista, mas realista, do inferno das drogas. Nada de passar a mão na cabeça, nada de afagos: é tudo muito foda. Você quer sair pelo bem dos pais, da família, de você mesmo, mas o ambiente em que se vive, que se participa, que se quer ter um futuro sempre tem uma influência sobre você, seja ele qual for. E “somente dizer não” na maioria das vezes não é suficiente. Você tem que se sacrificar. E muitas vezes, tem que sacrificar seu maior sonho, que não foi construído pelas drogas, mas que é inerente à elas. Kieds deixa claro que seus piores shows foram à base de drogas, que a banda acabou por causa das drogas, e perdeu muita coisa na vida por causa das drogas. O problema é sair do assunto, é viver sem algo que faz seu corpo pedir mais e mais, até não sentir mais efeito e partir pra algo mais forte. Essa foi a maior surpresa que tive ao ler o livro: Kieds não precisava da droga para compor, mas precisava para se manter em pé devido à quantidade que usava. O irônico é que, posteriormente, a droga acabou se tornando um dos grandes temas das músicas do cara, nunca enaltecendo, sempre tentando colocá-la pra baixo (“if you see me getting high, knock me down” – 89, “My friends are so depressed, I fell questions of your loneliness” – 94, “A teenage bride with a baby inside / Getting high on information” – 2001). Não dá para entender como ele não morreu e, ainda por cima, se mantém forte para um cara que tem 46 anos e usa drogas desde os 12. A droga nunca foi o combustível da criatividade de Kieds, mas ela era o motor para suas aventuras fora dos palcos. E também foi ela que levou seu melhor amigo, o guitarrista Hillel Slovak, que tocava em sua banda. Choque, perplexidade, tristeza. Mas a droga é uma amiga para bons e maus momentos. E é o tipo de amiga que não aceita um “não” como resposta.

O livro dá um panorama geral da vida de Kieds, mas senti que, através da escrita, era um manifesto de “say no to drugs”. Em todos os momentos do livro, todas as vitórias do autor eram deliberadamente diluídas em conceitos como amizade, respeito e simplicidade, ao “não culto à droga” como um elemento criativo dentro da vida. Essa coisa de expansão da mente, de sentir-se bom para criar somente com a droga, tudo isso parecia não ter a menor importância. É uma ode ao “be your fucking self”, o seja você mesmo sem o conceito químico. Tenha bons amigos, converse, bata papo, faça o que gosta, tenha tesão pelo que faz, acerque-se de pessoas boas, que tragam boas influências. E procure fazer o que gosta, o que acaba sendo o mais importante de tudo. A partir desta premissa você vai fazer sucesso, nem sempre financeiramente, mas com você mesmo, o que é imensamente mais importante, se não como um trabalho fixo, pode ser como um hobby, mas o importante é nunca abandonar essa coisa que você aprendeu que gosta e que te faz bem.

A gente muitas vezes pensa em não fazer determinadas coisas, mas que temos que fazer para ter experiência e não fazermos mais. Aprendi que essa é uma premissa boa para praticamente tudo o que existe, menos para as drogas. Perdi um amigo por ela. Um amigo dos melhores, daqueles do coração mesmo. E talvez vê-lo do jeito que vi foi fator preponderante na minha vida. Tenho amigos que usam drogas, nunca vou questioná-los e, se um dia precisarem, vão me encontrar lá para ajudar. Mas Kieds parece ter feito o livro para alertar algumas pessoas sobre como as drogas são desnecessárias na vida das pessoas. Sobre como a vida pode ser vivida sem elas. E como você pode ser feliz sem que seu corpo fique lhe pedindo mais e mais diariamente, minando sua distinção da realidade, afastando você dos que lhe querem bem.

Existem N outros motivos para se ler o livro, que é excepcionalmente divertido e rico em fábulas sexuais, construído por alguém que realmente curte bastante a vida, mas a mensagem (seja ela existente da maneira que vi, ou não) foi o que mais me tocou, porque, apesar de ter vivido intensamente, Kieds diz claramente que as drogas não trouxeram nenhuma alegria a sua vida, só tristeza e dor. E que, apesar de todas as suas aventuras, ele sente que as drogas só tiraram dele. O momentâneo não substitui o tempo perdido. E o tempo não volta.

E os Red Hot Chilli Peppers neste caldeirão todo? São e sempre serão o aditivo, o prato principal. Sem eles, Kieds já deveria estar no buraco. E ele deixa isso claro no livro também, qual a importância dos amigos na vida. E o Flea, aquele cara elétrico do começo deste texto, também usava drogas, mas não deixo que elas tomassem conta da sua vida. No fundo, talvez ele fosse igual ao Maluquinho: era somente um garoto feliz.

Analogia estranha, mas que veio de um cara que acompanha os Chilli Peppers desde o início. E alegria é algo que eles sempre trazem em tudo o que fazem, seja uma música, um videoclipe ou um DVD com show.

Bom, pelo menos para mim.

"Scar Tissue - A vida alucinada do vocalista do Red Hot Chilli Peppers"

"Scar Tissue - A vida alucinada do vocalista do Red Hot Chilli Peppers"

 
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Publicado por em 10/09/2009 em Livros, Música

 

Book vs. Movie/ Um Estranho no Ninho

(publicado originalmente em fev/07)


Não é de hoje que livros são fontes inspiradoras para filmes bem estruturados. Existem milhares de filmes baseados em obras literárias. Algumas cumprindo bem o papel a que se destinam, outras nem tanto. Stephen King que o diga. Já teve muita coisa boa escrita e pouca coisa boa filmada. A maior parte das adaptações de suas obras segue por um caminho comercial demais, sem aquele cuidado que se tem com um “filho”. Claro, existem excessões, mas a maior parte tem cara de “preciso de grana, compre os direitos sobre meu livro e faça o que quiser”. E Stephen King é apenas um dos casos, mas não o pior. A pior adaptação de um livro que já vi foi “A Rainha dos Condenados“. Um livro interessante, até mais que seu predecessor tornou-se um dos maiores fiascos do cinema moderno. Praticamente tudo o que havia na estrutura narrativa foi pro espaço, incluindo características físicas e, o pior, pontos-chave da história foram simplesmente ignorados. Um vexame para quem fez um roteiro, se é que alguém o fez.

Mas dentre as dezenas de erros, vez ou outra aparece alguém com real vontade de realmente adaptar uma obra com respeito. Um dos últimos casos, talvez o melhor e mais criativo, tenha sido “Alta Fidelidade“, de Stephen Frears, baseado no livro de Nick Hornby. Engraçado como ambos, filme e livro, são superlativos em relação a si próprios. O filme é tão legal quanto o livro e vice-versa. O roteirista foi criativo o suficiente para colocar a ambientação do livro na película, sem necessariamente fazer um passo-a-passo da obra, o que foi ótimo, pois simplesmente tentar passar através de uma roteirização todo o processo de evolução de um livro deve ser bem difícil, pra não dizer irreal. Afinal, Como representar visualmente as emoções descritas tão bem por palavras? Temos um exemplo do ano passado que comprova o que eu disse. Um livro interessantíssimo tornou-se um blockbuster vago e desprovido de sentimento. E as tais das “licenças poéticas” muitas vezes destróem o que um autor demorou meses para estruturar. No caso de “O Código da Vinci”, deixou óbvio o conforto financeiro solicitado pelo estúdio. O autor deixou claro demais que seu personagem lembrava Harrison Ford, usando essas mesmas palavras. Mas foi Tom Hanks que fez o papel. Além disso, o esforço todo do autor para nos levar a imaginar Julie Delpy como sua coadjuvante foi por água abaixo. Deve ser a tal da mercadologia. Outro bom exemplo foi “Blade Runner”, cujo livro e filme são distintos e excelentes.

Li o original de “Um Estranho no Ninho” ano passado. Eu já havia visto o filme, mas eu gostei tanto que acabei comprando o livro para comparação. E grande surpresa me aguardou quando descobri que Milos Forman havia conseguido fazer um filme à altura do livro. Elementos essenciais foram mantidos, assuntos foram citados e, principalmente, personalidades foram respeitadas. Toda a história de McMurphy e de como ele se fez de doido para escapar da prisão achando que um sanatório seria melhor para ele está na tela, em seus mínimos detalhes. Jack Nicholson se mostrou tão à vontade com o personagem que chega a ser assustador. Ganhou o Oscar pelo papel. Além disso, um grande elenco, hoje de atores conhecidos, dava seus primeiros passos em direção ao estrelato depois desse filme, entre eles Danny de Vito e o eterno Doc Brown, Christopher Lloyd.

Milos Formam parece um diretor centrado. Até demais. Três de seus filmes, além deste, estão entre meus favoritos de todos os tempos. E ambos são adaptações de biografias, mas extremamente criativos em narrativa. “Amadeus“, “O Povo Contra Larry Flint” e “O Mundo de Andy“. Formam é criterioso em suas escolhas, desde o tema até o elenco. E “Um Estranho no Ninho” é a comprovação maior. Usar o livro de alguém e roteirizar deve ser um processo de respeito e pesquisa, afinal existem obras que são feitas realmente para a leitura mas, mesmo assim, Hollywood não consegue enxergar o limite. Livros que tornam-se best-sellers praticamente já asseguram sua roteirização para cinema. Mas, apesar de gostar de alguns, a maior parte acaba cedendo ao status quo. Não consigo imaginar um filme de “O Apanhador no Campo de Centeio” ou “A Vida de Pi”, por exemplo.

Bom, talvez pelas mãos de Milos Formam eu consiga. Um pouco.

• Saiba +.

 
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Publicado por em 05/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 

book vs. movie / O Diabo veste Prada

(publicado originalmente em abr/07)

O pessoal que passa por aqui frequentemente sabe que curto uma comparação livro/adaptação para o cinema. Já vi muita coisa boa, mas também vi muita coisa ruim. Na verdade, o sentido de adaptação/reprodução está muito melhor fragmentado aqui. O fato é que há algum tempo vi “O Diabo Veste Prada” e até achei simpático. Tem toda aquela coisa hollywoodiana com direito a final feliz pré-fabricado mas, mesmo assim, um filme com certo conteúdo, mesmo que superficial. Nunca fui muito fã da tal Hathaway, mas a megera interpretada pela Meryl Streep valeu o filme todo. Curti e, como sempre digo, expectativa (ou ausência dela) é tudo.

Aí que uma ex-companheira de trabalho disse que havia gostado muito mais do livro, o que é mais do que suficiente para aguçar a minha curiosidade. Com todo ânimo, ela me emprestou o livro. É um livro leve, mas longe da superficialidade daquele filme “Sessão da Tarde” que vi. O plot original do livro que deve ser algo “recém-formada em jornalismo consegue emprego com a maior produtora de moda do mundo, uma megera sem sentimentos e que age com as pessoas como se fosse muito melhor que elas” foi seguido à risca. Aliás, falando em Sessão da Tarde, a chamadinha deveria ser algo como “essa gata arrumou um super emprego, mas sua chefe é o diabo em pessoa, e para colocar sua vida em ordem, ela vai passar por muita CONFUSÃO…”

O filme é, na verdade, uma mera desculpa. Além dos nomes utilizados e da personagem da Meryl Streep, o restante foi simplesmente descartado por algum roteirista preguiçoso. O livro, apesar de sua futilidade, toca em situações básicas de um recém-formado e, além disso, tem uma interpretação interessante sobre o sentido de amizade, que me lembrou muito “Bridget Jones” em alguns momentos. Os coadjuvantes são tão ou mais importantes até do que o plot principal e o sarcasmo utilizado pela autora em relação ao mundo da moda foi relegado a piadinhas esquecíveis. No texto encontra-se não só uma crítica efetiva sobre esse mundo e sua anorexia mental como também a suscetibilidade a que somos acometidos diariamente pela publicidade odiosa de gente considerada “perfeita”. Na verdade, os diálogos inteligentes, os personagens interessantes e a crítica sensata foram simplesmente limadas pela roteirista. O tal do “romance” foi açucarado de uma maneira que apenas Hollywood consegue, e o final do filme é uma vergonha e, de certa forma, até uma ofensa com a autora do livro, que havia conseguido um climax realista, sem ser sentimentalóide e lúdico.

Esse sim é um autêntico “veja o filme mas, pelamordedeus, leia o livro”.

 
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Publicado por em 05/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 

Materiais escuros

(publicado originalmente em dez/06)


A primeira vez que ouvi sobre a trilogia Fronteiras do Universo do escritor Phillip Pullman, me disseram que era “parecida com O Senhor dos Anéis”. Fui pensando que iria encontrar um mundo de fadas, elfos, criaturas místicas. Engano e má informação de quem me disse aquilo. Na verdade, deveria ser algo mais para “se você achou interessante O Senhor do Anéis, existe uma possibilidade de que goste muito de Fronteiras do Universo“.

Na boa, a única coisa que lembra mesmo é o fato de ser uma trilogia. Fora isso, são livros completamente diferentes. A começar pelo tom da história. Novamente batendo na tecla das traduções nacionais, Fronteiras do Universo não é um nome coerente para o original, muito mais complexo, denso e expressivo. His Dark Materials é abrangente e instingante, pois o “His” do começo do nome dá o verdadeiro tom da história: a religião contemporânea e como ela se utiliza de fraquezas humanas para manter-se em seu apogeu ano após anos. Se “Ele” tem alguns “materiais escuros”, portanto o mundo como o conhecemos seria diferente e menos claro. Agora, se o “His” quis se referir a outra coisa, ainda não sei, pois só li o primeiro livro. O fato é que esse primeiro livro é espetacularmente adulto e beira a indecência católica, se é que isso existe.

Tirando a história de lado, temos um misto de descobrimento do caráter feminino por uma criança de 10 anos, religiosos manipuladores, heróicos vilões e, mais ainda, uma imposição da reflexão do leitor ao mundo ao seu redor. Tudo isso ambientado num universo que não está a milhões de anos-luz de distância. Na verdade, está aqui, junto de nós, só que dimensionalmente oposto. Juntando a isso algumas “bruxas” e outros seres, temos um emaranhado bem amarrado de informações concisas e, em sua maioria, recheada de momentos emocionantes. Os seres estão lá, mas suas personalidades são de pessoas que podem estar sentadas ao seu lado no ambiente de trabalho. Seres iguais que só mudam de embalagem.

Entretanto, o grande chamariz desse primeiro livro é a importância dada à alma. É tocante saber que existe gente que consegue se utilizar de um corpo que tem sua alma “separada”, mas que demonstra paixão e humanidade muito maiores do que nós, que a detemos teoricamente dentro de um espaço apenas. Os “daemons” são uma atração a parte, e devem ser interpretados com calma e reflexão.

As comparações com a trilogia de Tolkien podem até exister, mas em muito momentos, principalmente em termos de valorização da alma, a de Pullman, pelo menos este primeiro, está anos-luz a frente.

 
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Publicado por em 05/09/2009 em Livros

 

Um bom começo

(publicado originalmente em nov/06)

Desventuras em Série

Quem me conhece sabe que sou ratão de sebo. Gosto de fuçar e acabar encontrando uns best sellers ou livros mais antigos por quase 1/4 do preço. Já achei de tudo: coleções do Bernard Cornwell por 10 contos cada (As Crônicas de Arthur), livros novos de Harry Potter, publicações antigas de publicidade, livros caríssimos de fotografia e até lançamentos como Anjos e Demônios. Existem sebos e sebos. Tem aqueles tiozinhos que guardam livros em prateleiras e dizem que tem organização e existem as pessoas que conseguem tirar lucro disso com organização e limpeza. Recomendo alguns na Brigadeiro e agora na Lapa.

Como ando numa pindaíba danada, peguei uns livros que estavam parados e fui levar no sebo pra trocar. Nem queria dinheiro, queria ler alguma coisa diferente. Na verdade, o que eu queria era ir na livraria e comprar qualquer livro que eu quisesse, mas não vai rolar, portanto vamos trocar livro velho por mais livro velho. Levei 5 livros (3 de publicidade, e mais dois que comprei no bacião da Fnac – aliás, entendi por que aqueles livros ficam no bacião…) e a mulher do balcão me olha e diz: “esses todos vc pode trocar por qualquer coisa até 8 reais…”

Sebo é barato, mas nem tanto.

Andei, olhei e nada. Não achei nada mesmo. Nem que tivesse que colocar mais uns trocados, simplesmente não encontrei. Até que, escondido entre outros livros maiores, achei um que tava querendo há tempos. Na verdade, não havia lido nenhum da coleção “Desventuras em Série”, mas o filme me impressionou tanto que fiquei mais afoito ainda para ler. E, o mais legal, o preço estava de acordo. Na verdade, acho que esse foi um dos primeiros casos em que vi o filme antes do livro. O filme é surpreendente porque é um filme sem target definido: é uma história teoricamente infanto-juvenil, mas triste. Começa triste, fica triste na metade, e acaba triste. Não tem um final feliz daqueles pré-concebidos. E foi isso que me atraiu. Num mundo de Disney, alguém teve coragem de fazer um filme muito legal, sem teor realistas, mas infinitamente mais ousado.

E, depois de ler o primeiro livro, admirei ainda mais o filme.

A história dos 3 irmãos Baudelaire, que perderam os pais em um incêndio e tiveram que ir morar com o parente mais próximo, o Conde Olaf é  muito mais do que a sinopse que acabo de revelar. O texto é ágil, conciso e deliciosamente cáustico, com uma pitadinha de sarcasmo. As situações alternam-se entre a verossimilidade pura e ficção nonsense. Talvez, por isso, funcione melhor como leitura que como visual, afinal o filme com Jim Carrey não foi bem como se esperava nas bilheterias. Mas sua fidelidade com o conteúdo é inquestionável. E o Conde Olaf é mal mesmo.

Conde Olaf e os Irmãos Baudelaire na adaptação

Conde Olaf e os Irmãos Baudelaire na adaptação

Independente de seu teor “triste”, ler a série de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler) nos deixa com um sorriso bobo no rosto, daqueles em que vc é avisado o tempo todo pelo narrador de que o final vai ser triste, mas vc espera que as coisas melhores e a Disneylândia aparece a qualquer momento. E, pelo menos ao final do primeiro livro, ela não vem.

E isso me deixa doido pra ler o próximo que, tenho certeza, vai ser dificil de encontrar em sebo.

 
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Publicado por em 03/09/2009 em Livros

 
 
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