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Resident Evil

(postado originalmente em abr/07)


Quando alguém me diz a frase “adaptação de videogame para os cinemas” a primeira coisa que me vem à cabeça é Street Fighter. Sim, aquele com o Van Damme e com o Raul Julia, que teve este como seu último trabalho. Triste. Mais triste foi ver filas e filas no dia da estréia. E, mais triste ainda, foi lembrar que eu estava lá, em alguma dessas filas.

Refeito do trauma, vieram outros, tão ruins quanto seu predecessor: Super Mario Bros, Double Dragon e, o melhor exemplo entre todos, Mortal Kombat. Mas ser melhor exemplo não redime nada, somente exalta a ruindade dos antecessores. Na verdade, a transposição de jogos para a telona é muito mais complexa do que parece. Em termos de representatividade em mídia, podem parecer semelhantes, mas são completamente diferentes. Consigo imaginar poucos conteúdos de videogame adaptáveis para o cinema, pois a maior parte é uma cópia de algo que já existia, a diferença é a jogabilidade. Pensar em zumbis é pensar em Resident Evil, mas Romero fez tudo o que se podia com zumbis, portanto um filme do jogo nunca surtiria um efeito necessário para alavancar um roteiro diferente. Ficaram no “feijão com arroz” mesmo e deu no que deu. Apesar de divertido, limitado. A prova do que acabei de dizer vem numa pergunta: “vc conseguiria imaginar um roteiro complexo para um filme de Doom (que já tem sua versão carne e osso e trash…) ou Duke Nuken? Imagina um filme do Alex Kidd ou Keystone Kapers?. Andaram dizendo que existem produtores falando em filme do Pac-Man! Esse sim, eu gostaria de ver o roteiro…

Como sempre, claro que existem excessões. Um bom roteirista iria surtar fazendo um filme para o Mega/Rock Man ou God of War. Mas Hollywood parece ainda não ter estrutura emotiva (leia-se sensibilidade) para segurar um rojão desses. Bom mesmo é dar dinheiro pra Uwe Boll, esse sim, um digno idealista. Quem viu Alone in the Dark e, caralho, Bloodrayne sabe do que eu estou falando. Boll deve ser controlar a mente das pessoas que o cercam para conseguir dinheiro, porque talento ele não tem nenhum. Pena que esse controle não se extende à audiência. Pensando bem, pena nada.

Mas, assim como existe a podridão, sempre existe a resistência.


Lembro que a primeira vez que comecei a jogar “Silent Hill” no meu PS1 à noite, parei depois de uns 15 minutos. Não dava pra jogar aquilo no escuro. O clima era absurdamente assustador e a sensação que o jogo passava era de tristeza e temor. Não o susto gratuito, mas sim o trabalho no subconsciente de quem estava jogando. Com certeza devo ter sido um dos poucos, mas o jogo pegou pesado comigo. Tive que continuar jogando de manhã, com a luz acesa. A boa notícia é que Christopher Gaens conseguiu passar toda essa aura de pesadelo pra telona.

“Terror em Silent Hill” (mais um título com mais que o necessário…) é um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos para mim. Pelo simples fato de que me fez sentir o que senti enquanto jogava. O clima pesado, escuro, recheado de simbolismos e seres decrépitos está todo lá, mesmo que numa miscelânea de fatores dos jogos, algumas “licenças poéticas” e mudanças que em nada alteraram o teor da história. Mudar o sexo do protagonista foi uma sacada de gênio, afinal uma mãe demonstra muito mais o desespero pela busca da filha do que um homem. O elenco, afinadísimo, é uma surpresa ótima. Radha Mitchel transborda aflição em sua busca. E a garotinha que interpreta sua filha é excelente. Fez 3 papéis, cada um com uma personalidade diferente. Tem futuro.

Mas a direção é o ponto alto do filme. Eu já havia gostado muito de Pacto dos Lobos, mas, para mim, Gaens conseguiu o que muita gente tenta com esses filmes de terror teen e até uns mais maduros. O sangue está lá, mas não é gratuito. O grande forte mesmo é estar num ambiente que parece realmente um pesadelo, coisa difícil de fazer numa transposição. A Cela tentou e quase conseguiu. Mas a direção de arte suja e as câmeras inteligentes fizeram “Silent Hill” ser um exemplar único. O cuidado, esmero e detalhismo da produção me deixaram de queixo caído. Talvez as pessoas que lerem isso pensem “caralho, que exagero”, mas a tal da expectativa conta muito nestas horas. E minha expectativa era que esse filme fosse apenas mais um.

Se tivesse grana, mandava uma cópia disso pro Uwe Boll.

Ah, o DVD tem uns extras bem legais, que falam da concepção dos seres e depoimentos da produção. Os posters são excelentes, muitos melhores do que a capa do dvd brasileiro, baseado no último ai embaixo.










 
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Publicado por em 12/09/2009 em Filmes, Games

 

“We Love Rock n’Roll…”

(publicado originalmente em ago/07)

Reunir a familia em frente da TV está cada vez mais dificil. Com tantas opções, fica complicado reunir 3 elementos que queiram ver a mesma coisa. Geralmente um fica só olhando, pensando em outras coisas, só para estar presente. Antes parecia um pouco mais prático. Haviam apenas uns 8 canais e referências básicas para qualquer família, sendo seu maior representante nessa categoria o senhor Abravanel. Era simples. Bem mais simples do que agora. Fora que hoje estamos todos com pressa, mesmo em dias de descanso. Aqui em casa a gente ainda consegue organizar um jantar em familia com a TV desligada, ou um café da tarde pra bater papo, mas a tendência é que isso acabe brevemente. A TV é um elemento presente, um “ser” que proporciona momentos de diversão e de completo silêncio entre os familiares. Observando um pouco mais, vejo a TV como um momento de placebo coletivo. O “estar em familia” ali é contextualizado. “Sentei na sala 15 minutos pra ver uma notícia com minha família, já fiz minha parte por hoje.”

O fato é que podemos sentar na frente da TV todo dia pra ver uma novela, jogar um videogame e principalmente, ver um filme. Mas antes a interação vinha de uma maneira mais carinhosa, mais purista. Hoje é mecânico, isso quando não se torna mera obrigação. “Momentos Kodak” de verdade estão cada vez mais raros. Isso a própria televisão tem sua parcela de culpa, mas o input real de culpa é do próprio povo, que curte não se manifestar e simplesmente engolir o que vem pela frente. E aí temos telejornais sensacionalistas ao extremo, programas infantis imbecis, novelas vazias e programas de auditório apelativos. O que vejo é a constante banalização da violência e do sexo cada vez mais presentes. Dizem coisas como “cenas de nudez, só depois das 22h”, mas quem viu pelo menos 30 segundos de Gilberto Barros sabe que advogados devem ter mais de 30 definições para o verbete “nudez”.

E o que tudo isso tem a ver com Guitar Hero?

Há algum tempo, estamos assinando a televisão a cabo, porque não conseguiamos ter momentos familia com a TV aberta. Tentamos, principalmente no sábado a tarde, mas viver de Celso Portiolli e Márcio Garcia (este último, parece até mais preocupado com a contextualização de sua imagem) não é um bom alimento para a mente. Tudo bem, podem vir me dizer que é “apenas diversão” mas não dá pra assistir sem ter um pouco de senso crítico. O fato é que a TV a Cabo pelo menos nos dá opções diferenciadas, seja um filme dos anos 80, seja um desenho diferente para minha filha. A TV aberta está tão desprovida de características que é só aparecer um quadro criativo em um canal que o outro automaticamente copia o mesmo quadro, só que com outro nome. E o que falar do domingo? Há meses não via o Silvio Santos e quando vi há alguns dias ele estava com os mesmos quadros da época em que eu assistia com meus pais numa TV preto e branca. A banalização em relação à violência e ao sexo estão presentes, mas existe uma banalização também em termos de renovação. É algo que vivo muito na publicidade: “vamos fazer assim porque vende, então fica mais fácil do cliente aceitar”. Ou seja, mais do mesmo.

Aqui em casa todos gostam do PS2, mas nenhum jogo foi tão disputado quanto Guitar Hero. Num mundo musical hoje praticamente habitado por seres como Fergie, Akon e NXZero, é maravilhoso ver uma família em volta da TV ouvindo (e “tocando”) Black Sabbath, Franz Ferdinand e Megadeth. Minha filha hoje é bombardeada pelos aqueles cantores (sic) de rap impostos pela 89FM, movida pela audiência americana que só traz empobrecimento para a cultura musical do planeta. E quando a vejo tentando domar o controle do videogame tocando “Bark at the Moon” by Mr. Crawling ou “Sharp Dressed Man”, do ZZ Top, só posso sorrir e pensar que ela tem opções. Se escolher o 50Cent ao Arctic Monkeys, pelo menos vai escolher com conhecimento de causa, o que já é um alívio para um pai desesperado por abrir novas portas para um filho. O conhecimento é tão importante para a formação de uma pessoa quanto alimentação. O ser precisa saber que existe muito mais além dos grupos de pagode, do nojento funk carioca (que parou de retratar a realidade de uma maneira positiva e agora só enaltece o que antes era tabu) e da mídia maciça que só se preocupa com o fluxo de caixa. Ver a minha familia reunida em frente à TV para um combate de guitarras através de controle não é massificação, é interação, é competição e é conhecimento.

Sabem como sei disso? Quando vejo que minha esposa e filha nunca ouviram falar do Bad Religion mas, como adoraram a melodia de “Infected” presente em Guitar Hero, foram atrás de saber do que se tratava, e descobriram uma letra que falava de Aids e de como rock n’roll tem um sentido muito menos capitalista do que aparenta na maioria dos seus momentos. Além disso, ouvi-las cantarolando pequenas partes de “Killer Queen”, “Iron Man” e “I Wanna Be Sedated” sem nem perceber, é uma coisa que não tem preço.

Sei que lendo esse texto parece que é algo fútil e pequeno, mas no mundo globalizado de hoje, ensinar os que vêm a ter opções, serem responsáveis e, principalmente, a ter personalidade própria é um desafio. A mídia não quer seres pensantes. A mídia quer pessoas que cantem nos metrôs, ônibus e lotações sem saber o que estão dizendo. É só pegar qualquer letra de rappers (sic novamente) americanos atuais e ver que não têm conteúdo nenhum. Um reflexo de sua nação, que não tem identidade própria, mas é um excelente vendedor de porta-em-porta. E, musicalmente, o Brasil hoje está num patamar quase parecido, porque perdeu sua identidade musical. Bandas antigas continuam ai, mas só por causa dos Acústicos. As bandas novas que estão nas rádios não trazem nada de novo, não fazem o básico de uma boa musicalidade: fazer o jovem se mexer, pesquisar, ousar. Nos anos 80, se tínhamos o RPM, também existia a opção de ouvir Inocentes, Replicantes, Cólera, Legião e Defalla, fora os grupos que viviam de suas pequenas participações em programas da, pasmem, 89FM. (Paradigma do caralho. São por essas coisas que não acredito em coincidência e sim em karma…)

Com a internet cada vez mais acessível, juro que pensei que os jovens iriam atrás de conhecimento e diversificação, mas acho que cada vez mais ele fica preguiçoso, mesmo tendo um mundo todo de conhecimento nas mãos. E a mídia deveria ser fator decisivo nessa lazzy way desenvolvida talvez, por eles mesmos.

Bom, o que posso fazer é tentar melhorar a minha parte. Repito sempre para minha filha para que não se contente com pouco, que não aceite apenas o que aparece na mão dela. É uma luta diária, contra a televisão, contra o rádio, contra o sistema de uma maneira geral e, por que não, até contra outros pais, que também tornaram-se preguiçosos.

Mas, vou te dizer uma coisa: tudo vale a pena quando aquela pequena passa por mim com os cadernos de lição nas mãos cantarolando um “pam, pam, pam… pam, pam, param… pam, pam, pam… pam, pam…)”.

PS.: Se alguém quiser, posso upear as músicas do Guitar Hero 1 para download. Tem desde Joan Jett, Incubus até White Zombie. Vale muito a pena. É só dizer ai se querem…

 
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Publicado por em 11/09/2009 em Games, Música

 
 
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