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Arquivo da categoria: Book vs. Movie

Ausência de Anita

(publicado originalmente em set/09)

Se você passa por esse blog frequentemente, sabe que tenho uma pré-disposição pra livros que viram filmes. Gosto do comparativo porque são duas coisas que me interessam: o texto por si só e como um diretor interpretaria isso visualmente. Na verdade, vi resultados excepcionais e aberrações financeiras, além daqueles que parecem ter medo de errar e constróem um filme calcado no básico. O que aprendi com essas adaptações é que ousar tem variáveis diversas, afinal, são duas visões distintas, uma textual e outra visual e nem sempre uma equipe técnica de umas 10 pessoas tem a sensibilidade de um escritor.

Quem comentou inicialmente esse livro foi o Jr, velho amigo de um grupo de cinema do qual faço parte. Quando o assunto veio em pauta, a adaptação em si, ele logo soltou “esse eu quero ver. Se no filme metade do que rolou no livro, vai ser uma baixaria só…”. Provavelmente minha animalidade se sobressaiu ao meu modus operandi default e comprei o livro no dia seguinte. Li com gosto, mas acho que o fato de ter me tornado pai me faz ver as coisas de uma perspectiva diferente. Fiquei mais sensível pra determinados assuntos e sempre coloco minha filha em primeiro plano quando o subject é desenvolvimento feminino. Na verdade, me sinto meio perdido com essa adolescência precoce de hoje (minha filha tem 6, mas em alguns momentos age como se tivesse 14…) e isso me assunta deveras. Ao ler “100 escovadas antes de ir pra cama” me vieram centenas de imagens do crescimento da minha filha e, principalmente, como pode ser difícil pra ela vir a enfrentar esses problemas e como a mídia hoje banaliza assuntos teoricamente sérios como sexo e família. Entendeu o contrasenso aí? A leitura poderia ser apenas mais um livro com teor sexual, mas não, virou assunto de preocupação. Tudo isso porque eu trabalho com a merda da mídia, e todo dia me preocupo um pouco mais.

Que bosta, era tão legal curtir um livro desses como o Jr.

O livro é basicamente um apanhado de pretensas oportunidades sexuais de uma garota chamada Melissa e de como uma garota sem direcionamento familiar pode confundir as coisas nesse assunto. Mas, talvez pela fragilidade textual e inexperiência da autora, o livro é muito mais superficial no assunto em si do que nas descrições sexuais dos atos em si. A autora parece querer chocar de todas as maneiras possíveis. E acabe deixando o lado familiar/evolutivo meio que pra segundo plano, o que explica o sucesso de vendas no mundo todo. O tema central é confusão que uma adolescente pode ter em seus primeiros passos em relação ao sexo e como a família é importante nesse processo. Ponto. Mas o que literalmente salta aos olhos é a lambaça sexual que a garota se propõe nessa busca. O que gera o inevitável “será que ela fez tudo isso mesmo?”. Não duvido que ela tenha feito, mas esse é exatamente o maior problema do livro: sua exaustão em querer ser polêmico, afinal o que essa garota fez em 1 ano é o equivalente a uma vida para muitas mulheres. E é aí que reside a grande sacada financeira do livro: o “lolitismo”. Curiosidade masculina pela perversão em si, e curiosidade feminina pela experiência não adquirida.

O filme é o oposto do livro. Ele já começa expondo dúvidas e explorando muito mais a ausência familiar do que o ato sexual por si. Existe ali uma inversão de valores extensa e profícua de que o livro tem uma mensagem além do sexo em si. O que Melissa Panarello não conseguiu exemplificar em palavras, o diretor Luca Guadagnino conseguiu montar visualmente. As dúvidas de sua protagonista estão lá, na mente e no corpo, na família e nos amigos. E essa vantagem linguística talvez seja o que fez com que o filme não emplacasse no mundo, pois o polêmico deu lugar à dúvida e o erotismo deu lugar ao desconforto da adolescência. A Melissa do filme não é vulgar, tampouco sabe o que está fazendo. Ela utiliza uma ferramenta que foi lhe imposta para dar vasão aos seus desconfortos como mulher, amiga e filha. A superficialidade do livro aqui é utilizada como momento de reflexão, de compaixão até. A interpretação de Maria Valverde não tem intenção de ser Mel Lisboa, ao contrário, prima-se pela inocência até nos momentos mais fortes.

Mas só sendo pai de uma garota pra entender dessa maneira. O que assola nossas mentes diariamente não é o fato de que um dia nossa filha vai perder a virgindidade, mas sim como vai ser, porque é um assunto que deve ser tratado com maturidade e amizade, pois é bem mais complicado do que para um garoto. E a mídia não ajuda. E o filme é um retrato bem particular do que pode acontecer se não estivermos presentes no dia a dia, não como pais chatos e inconvenientes, mas sim como amigos interessados. Queria poder curtir o livro e até o filme com outros olhos, mas a paternidade muda a gente.

Tá vendo? Saudades de ler um livro desses com os olhos do Jr. E felicidade por não ver um filme desses com olhos de “crítico de cinema”.

 
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Publicado por em 11/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 

A importância dos detalhes

(Publicado originalmente em set/07)

Como a gente define se um filme é bom? Tá, a gente define sabendo se gostou ou não, eu sei disso. Mas e quando a gente conhece o conteúdo, por exemplo, um livro, e sabe que aquelas palavras podem ser claramente transformadas em vídeo e até em sentimento por um diretor habilidoso? Então, se a gente vê uma adaptação de um livro e o resultado não é bom é culpa do diretor?

Antes de “O Caçador de Pipas” eu colocava os profissionais diretor de cinema e roteirista de cinema no mesmo saco. Se um filme é bom, é bom, se é ruim, é ruim. A equipe inteira deve ter acertado se o filme é bom e, consequentemente, errado se o filme é ruim. Mas não é assim. E me senti um completo padawan em cinema ao perceber isso. Não que eu seja um expert no assunto, pelo contrário, minhas palavras sobre o assunto são sempre como fã, nunca como “entendido”.

E como fã, eu sabia que o livro havia sido escrito de uma maneira habilidosa para tornar-se um filme. Tava tudo ali, tintim por tintim. Era um copy/paste prático para um roteirista. Limando um pouco, iria virar um filme de, sei lá, umas 2h20 ou 2h30. Pouco para uma história tão simpática e atual, que narrava situações familiares, amizade, erros, acertos, tudo isso no meio de um contexto histórico interessante, sobre como era o Afeganistão e região antes das guerras. Mas o cerne da história era a riqueza de detalhes que o autor utilizou para amarrar tudo isso. Eu sempre acreditei em detalhes, acho que eles são tão ou mais importantes do que as grandes coisas. São neles que residem nossa dedicação, nosso ócio criativo, nosso amor incondicional.

E foi aí que eu aprendi que um diretor habilidoso pode fazer sua parte num filme, mas que sem um roteirista que esteja na mesma vibe que ele, tudo se perde. A parte visual e estética do filme, desde seus créditos iniciais, é feita com o esmero único, aquele cuidado que os artistas tem com suas obras mais pessoais, aquela curvinha numa letra, aquela luz diferenciada, aquele olhar do ator, aquele sorriso no momento correto. Sim, o diretor soube dirigir seus atores, nenhum deles conhecido por aqui, e fez algo extremamente corajoso, coisa de Mel Gibson: um filme com mais de 70% não falado em inglês. E isso é um toque especial para a história. Detalhe é isso aí. E fez a diferença. Lição de casa do diretor feita. Trabalho nota 10. O nome do figura que merece aplausos: Marc Foster, que tem no currículo os fantásticos “Mais Estranho que a Ficção” e “Em Busca da Terra do Nunca”.

Mas, o filme é bom? Não.

O nome do figura que merece a vaia: David Benioff. Roteirista já conhecido tendo feito excelências como “A Última Noite”, de Spike Lee e vergonhas como “Tróia”. Independente do currículo profissional (quem não deu uns deslizes?), o livro é, por si só, basicamente um roteiro pré-desenvolvido. O que Benioff fez foi simplesmente tirar praticamente todos os detalhes que poderiam causar empatia com o público. Os personagens são vazios, desconexos, a gente vê o filme e não torce pra ninguém. O que poderia ser uma experiência cinematográfica no mínimo interessante passa a ser oco, sem nenhum desenvolvimento de personagens. Você sai do cinema pensando: “e daí?”, e não deve ter ofensa maior para um diretor, a não ser pro Uwe Boll.

Bonito, insensível, frio e extremamente bem editado. Dá pra ser mais incoerente?

 
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Publicado por em 11/09/2009 em Book vs. Movie

 

Book vs. Movie/ Um Estranho no Ninho

(publicado originalmente em fev/07)


Não é de hoje que livros são fontes inspiradoras para filmes bem estruturados. Existem milhares de filmes baseados em obras literárias. Algumas cumprindo bem o papel a que se destinam, outras nem tanto. Stephen King que o diga. Já teve muita coisa boa escrita e pouca coisa boa filmada. A maior parte das adaptações de suas obras segue por um caminho comercial demais, sem aquele cuidado que se tem com um “filho”. Claro, existem excessões, mas a maior parte tem cara de “preciso de grana, compre os direitos sobre meu livro e faça o que quiser”. E Stephen King é apenas um dos casos, mas não o pior. A pior adaptação de um livro que já vi foi “A Rainha dos Condenados“. Um livro interessante, até mais que seu predecessor tornou-se um dos maiores fiascos do cinema moderno. Praticamente tudo o que havia na estrutura narrativa foi pro espaço, incluindo características físicas e, o pior, pontos-chave da história foram simplesmente ignorados. Um vexame para quem fez um roteiro, se é que alguém o fez.

Mas dentre as dezenas de erros, vez ou outra aparece alguém com real vontade de realmente adaptar uma obra com respeito. Um dos últimos casos, talvez o melhor e mais criativo, tenha sido “Alta Fidelidade“, de Stephen Frears, baseado no livro de Nick Hornby. Engraçado como ambos, filme e livro, são superlativos em relação a si próprios. O filme é tão legal quanto o livro e vice-versa. O roteirista foi criativo o suficiente para colocar a ambientação do livro na película, sem necessariamente fazer um passo-a-passo da obra, o que foi ótimo, pois simplesmente tentar passar através de uma roteirização todo o processo de evolução de um livro deve ser bem difícil, pra não dizer irreal. Afinal, Como representar visualmente as emoções descritas tão bem por palavras? Temos um exemplo do ano passado que comprova o que eu disse. Um livro interessantíssimo tornou-se um blockbuster vago e desprovido de sentimento. E as tais das “licenças poéticas” muitas vezes destróem o que um autor demorou meses para estruturar. No caso de “O Código da Vinci”, deixou óbvio o conforto financeiro solicitado pelo estúdio. O autor deixou claro demais que seu personagem lembrava Harrison Ford, usando essas mesmas palavras. Mas foi Tom Hanks que fez o papel. Além disso, o esforço todo do autor para nos levar a imaginar Julie Delpy como sua coadjuvante foi por água abaixo. Deve ser a tal da mercadologia. Outro bom exemplo foi “Blade Runner”, cujo livro e filme são distintos e excelentes.

Li o original de “Um Estranho no Ninho” ano passado. Eu já havia visto o filme, mas eu gostei tanto que acabei comprando o livro para comparação. E grande surpresa me aguardou quando descobri que Milos Forman havia conseguido fazer um filme à altura do livro. Elementos essenciais foram mantidos, assuntos foram citados e, principalmente, personalidades foram respeitadas. Toda a história de McMurphy e de como ele se fez de doido para escapar da prisão achando que um sanatório seria melhor para ele está na tela, em seus mínimos detalhes. Jack Nicholson se mostrou tão à vontade com o personagem que chega a ser assustador. Ganhou o Oscar pelo papel. Além disso, um grande elenco, hoje de atores conhecidos, dava seus primeiros passos em direção ao estrelato depois desse filme, entre eles Danny de Vito e o eterno Doc Brown, Christopher Lloyd.

Milos Formam parece um diretor centrado. Até demais. Três de seus filmes, além deste, estão entre meus favoritos de todos os tempos. E ambos são adaptações de biografias, mas extremamente criativos em narrativa. “Amadeus“, “O Povo Contra Larry Flint” e “O Mundo de Andy“. Formam é criterioso em suas escolhas, desde o tema até o elenco. E “Um Estranho no Ninho” é a comprovação maior. Usar o livro de alguém e roteirizar deve ser um processo de respeito e pesquisa, afinal existem obras que são feitas realmente para a leitura mas, mesmo assim, Hollywood não consegue enxergar o limite. Livros que tornam-se best-sellers praticamente já asseguram sua roteirização para cinema. Mas, apesar de gostar de alguns, a maior parte acaba cedendo ao status quo. Não consigo imaginar um filme de “O Apanhador no Campo de Centeio” ou “A Vida de Pi”, por exemplo.

Bom, talvez pelas mãos de Milos Formam eu consiga. Um pouco.

• Saiba +.

 
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Publicado por em 05/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 

book vs. movie / O Diabo veste Prada

(publicado originalmente em abr/07)

O pessoal que passa por aqui frequentemente sabe que curto uma comparação livro/adaptação para o cinema. Já vi muita coisa boa, mas também vi muita coisa ruim. Na verdade, o sentido de adaptação/reprodução está muito melhor fragmentado aqui. O fato é que há algum tempo vi “O Diabo Veste Prada” e até achei simpático. Tem toda aquela coisa hollywoodiana com direito a final feliz pré-fabricado mas, mesmo assim, um filme com certo conteúdo, mesmo que superficial. Nunca fui muito fã da tal Hathaway, mas a megera interpretada pela Meryl Streep valeu o filme todo. Curti e, como sempre digo, expectativa (ou ausência dela) é tudo.

Aí que uma ex-companheira de trabalho disse que havia gostado muito mais do livro, o que é mais do que suficiente para aguçar a minha curiosidade. Com todo ânimo, ela me emprestou o livro. É um livro leve, mas longe da superficialidade daquele filme “Sessão da Tarde” que vi. O plot original do livro que deve ser algo “recém-formada em jornalismo consegue emprego com a maior produtora de moda do mundo, uma megera sem sentimentos e que age com as pessoas como se fosse muito melhor que elas” foi seguido à risca. Aliás, falando em Sessão da Tarde, a chamadinha deveria ser algo como “essa gata arrumou um super emprego, mas sua chefe é o diabo em pessoa, e para colocar sua vida em ordem, ela vai passar por muita CONFUSÃO…”

O filme é, na verdade, uma mera desculpa. Além dos nomes utilizados e da personagem da Meryl Streep, o restante foi simplesmente descartado por algum roteirista preguiçoso. O livro, apesar de sua futilidade, toca em situações básicas de um recém-formado e, além disso, tem uma interpretação interessante sobre o sentido de amizade, que me lembrou muito “Bridget Jones” em alguns momentos. Os coadjuvantes são tão ou mais importantes até do que o plot principal e o sarcasmo utilizado pela autora em relação ao mundo da moda foi relegado a piadinhas esquecíveis. No texto encontra-se não só uma crítica efetiva sobre esse mundo e sua anorexia mental como também a suscetibilidade a que somos acometidos diariamente pela publicidade odiosa de gente considerada “perfeita”. Na verdade, os diálogos inteligentes, os personagens interessantes e a crítica sensata foram simplesmente limadas pela roteirista. O tal do “romance” foi açucarado de uma maneira que apenas Hollywood consegue, e o final do filme é uma vergonha e, de certa forma, até uma ofensa com a autora do livro, que havia conseguido um climax realista, sem ser sentimentalóide e lúdico.

Esse sim é um autêntico “veja o filme mas, pelamordedeus, leia o livro”.

 
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Publicado por em 05/09/2009 em Book vs. Movie, Filmes, Livros

 
 
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