
Às vezes algumas coisas acontecem na vida da gente e nem percebemos. Coisas que não esperamos, coisas que parecem sempre desestruturar, que inicialmente aparentam existir apenas para causar desequilíbrio, tristeza e complicação. Muitos sucumbem a esse tipo de situação, várias vezes até ampliando o espectro do problema e, consequentemente, perdem a razão real dos motivos que levaram aos eventos. Acho que o fundamento básico desses pequenos trechos de confusão na vida da gente é esse mesmo: nos mudar. O que me faz pensar que, no meio de toda a bagunça, há sempre um sentido por trás disso, pois não estamos falando de destruição, mas sim de desconstrução.
Aqueles poucos que conseguem ser otimistas, fortes e, acima de tudo, conseguem no meio da turbulência enxergar nem que seja por um segundo o que pode mudar de positivo na vida a partir da negatividade acabam por querer levantar-se e continuar com energia renovada. Em uma metáfora simplificada, imagine um quadrado feito de Lego na calçada. Várias pecinhas juntas, formando um objeto. Alguém está andando e pisa nele, jogando todas as peças que o compõem para lugares diferentes, causando além de confusão também um desequilíbrio completo na estrutura que antes existia. Mas o objeto em si ainda existe ali. Não foi destruído, só foi desconstruído, o que possibilita que, com um pouco de ajuda e auto-controle, seja reconstruído. Mais forte, mais estruturado e, principalmente, com mais experiência. Uma nova forma será criada a partir da confusão, com novos objetivos e, principalmente, com mais experiência.
Portanto, temos que enxergar o lado bom do que acontece de ruim no nosso caminho porque, no mínimo, ele nos direcionará para outro caminho, seja ele do nosso gosto ou não. O importante é sempre levantar a cabeça, respirar fundo e aceitar as mudanças e transformá-las a seu favor. O que aprendi nesta vida é que grandes mudanças só acontecem realmente com pessoas que estejam dispostas a aceitá-las, pois a maioria prefere muito mais ser o quadrado de Lego do que efetivamente transformar-se em algo melhor, mesmo que seja a duras penas. O ser humano não existe para ser simples, pois é na complexidade e na adversidade que nos tornamos melhores.
Enfim, fases vem e vão, assim como aprendizado. O importante é o que tiraremos de proveito das turbulências, pois reza a lenda que depois da tempestade vem a calmaria. Pode ser que para alguns essa paz venha mais rápido do que para outros, mas uma coisa é certa: siga seu rumo no caminho correto e a paz te encontrará. Não desistir e aceitar as dificuldades é uma arte, e é à partir de uma pedra, de uma pincelada, de um pedaço velho de árvore que as melhores obras são feitas.
Portanto, continuemos.
E para todos aqueles que acham que devem desistir e que a vida é injusta, fica aqui o trailer de um filme espetacular, real e denso que me ajudou a entender este momento complexo da minha vida, que funcionou como um brado alto junto ao meu ouvido, ironicamente me tirando da surdez.
Reler Wikinomics foi uma agradável surpresa por dois motivos: 1) O livro continua atual, mesmo com a maior parte dos exemplos agora já terem se tornado superpotências virtuais (o que enaltece mais um pouco a visão moderna e visionária dos autores); 2) Senti como se agora entendesse bem mais do que acontece em relação ao mundo virtual, provavelmente porque esse é o mundo que agora ando respirando, mesmo que ainda com pulmões de um recém-nascido. É impressionante como um livro desse nicho pode ter 4 anos e ainda manter a pose. Há algum tempo fiz o mesmo com outro livro do assunto e o achei extremamente ultrapassado e prosaico (estou fazendo um esforço danado pra lembrar qual era, mas a única lembrança que me vem é que o dono do sebo me deu pouco por ele, mesmo na troca…), o que evidencia que gente que tem algo a dizer não se rende ao tempo. Os ensinamentos e exemplos ali valem ouro para quem está querendo entender um pouco mais desse insano mundo que é a internet.
Anteontem fiquei de molho porque sofri um pequeno acidente: consegui tropeçar numa escada do Terminal de Ônibus e torci os dois pés. O resultado disso são dois tornozelos que parecem polainas feitas de carne. O lado positivo é que não quebrei nenhum dos dois, apesar da insana dor que o acidente me causou (sério, nunca tive tanta dor assim na vida, e olha que eu tenho cálculo renal crônico…), coisa que nunca mais quero sentir. Não sou adepto da correria diária, tanto que evito qualquer desespero por causa de trabalho, principalmente porque, segundo meu amigo Alan, “sou o mais próximo de um Peter Sellers que um brasileiro jamais vai chegar”, mas a segunda-feira foi estressante e complicada, portanto não tive muito tempo para colocar a cabeça em ordem. Como sou desastrado por natureza o resultado foi dor excruciante por pressa pra chegar no trabalho, o que realmente não valeu a pena. Tudo isso pra dizer que fiquei em casa com os pés pra cima e acabei assistindo O Pentelho, o que me fez lembrar do texto da semana passada, em que eu falava de expectativa. Cable Guy foi o Corpo Fechado de Jim Carrey, que vinha numa suscessão incrível de filmes de comédia física, o que decepcionou muita gente em se tratando do filme dirigido por Ben Stiller (que se mostrou um ótimo profissional e conseguiu ser o primeiro a mostrar que Carrey não é apenas um careteiro extrordinário, mas também um careteiro extraordinário que sabe atuar). Com um roteiro simples, mas mais voltado para o drama, é um filme moderno, humano e fatídico e que, em alguns momentos, até nos deixa apreensivos com as tomadas escuras e bem emolduradas. Ainda no filme, Jack Black e Owen Wilson em início de carreira de gente grande, mas o filme é inteiro de Carrey, que mostra grandes caretas, mas também um lado artístico que ninguém ainda conhecia. Matthew Broderick até tenta, mas Chip Douglas é o centro do filme, não tem jeito. Aliás, a tridimensionalidade do personagem impressiona pela modernidade e pelo feedback crítico em relação a mídia. Foi um enorme fracasso, mas garanto que foi por ele que alguns diretores olharam para o antigo Ace Ventura com outros olhos. Um grande filme. Para poucos, mas ainda assim, grande.
Também vi Inimigos Públicos e, apesar de ser grande fã de Michael Mann, não sou fã do estilo extra-mega-blaster-cool que ele adotou em Miami Vice. E ele faz o mesmo, de uma maneira mais contida, nesse Public Enemies, para contar a história de John Dillinger. Os personagens são vazios demais em contraste com a vida que Mann exala na direção. Chega a ser triste que um esmero tão grande com posicionamento de câmeras, sombras, tomadas perfeitas, sejam negligenciados por um texto sem graça e preguiçoso. E olha que sou fãzão do Depp, hein? E o Bale? Pensei que ele fosse um dos atores principais. Que nada. Seu papel, apesar de importante, é redundante e sem direcionamento. O filme tem uma forma linda para pouco conteúdo, infelizmente. Saudades de Colateral.