Na busca por um livro indicado por um amigo, me vi na inusitada situação de ter que ir até uma livraria para retirar o mesmo. Fiz toda a pesquisa na web, mas não encontrei para venda on-line e, onde encontrei, demorariam cerca de 5 dias para entregar. Para quem usa o transporte coletivo de São Paulo, sabe que um bom livro segura muito stress. Assim, decidi que não haveria problema algum me deslocar para lá, algo que não fazia há algum tempo.
A vida on-line nos deixa assim, preguiçosos. Podem chamar de praticidade, mas aprendi com essa aventura que pode até ser prático, mas no fundo mesmo a preguiça é a grande vencedora. Preguiça não apenas do deslocamento, mas do convívio social, da possibilidade de ser surpreendido, pela emoção de ver um outro ser humano totalmente desconhecido. Estamos nos tornando seres desconfigurados socialmente,
Cheguei até a mega livraria, que é em um shopping, e já fui logo procurando um terminal de pesquisa. Constatando que os únicos que tinham acesso aos computadores eram funcionários, meu cérebro estranhou, respirei fundo e me vi tendo que perguntar algo a um semelhante. Ao pesquisar, o funcionário sequer colocou o nome do livro na busca e já foi me dizendo que não tinham. Reparei o erro, mas não o alertei em primeira instância. Demorei uns 5 minutos até encontrar outro funcionário, que repetiu a mesma coisa e, mesmo eu dizendo que o nome estava incorreto, insistiu que não tinham o livro no local e que “a busca no computador nunca falha”. Pensei em desistir e procurar outra coisa. Olhei, mas meu cérebro não consegue mais assimilar as coisas com calma e paciência, eu precisava de uma forma de busca otimizada, algo que realmente me fizesse sair dali em 40 segundos, satisfeito com alguma aquisição. Senti até meu coração disparado, o que não é algo muito comum para mim. O contato com a livraria me deixou elétrico e sem foco, eu não conseguia sequer visualizar as prateleiras com atenção. Ao me dar conta desse fenômeno estranho, respirei fundo e fiz o possivel para me lembrar como eu adorava passar algum tempo na livraria, escolhendo algo que eu não sabia direito o que era. Ou melhor, eu esperava ser encontrado, não corria de encontro desesperadamente ao que estava procurando. Encontrei uma funcionária que parecia ser mais atenciosa e, com um sorriso no rosto, ela completou o nome do livro que eu estava procurando antes mesmo de eu terminar. Foi ao terminal mesmo sabendo que não tinha o livro, só para me dar a notícia de uma forma humana e respeitável. E ainda me informou que havia uma edição em outra loja deles, também em um shopping. Agradeci e me lembrei que há outras formas de vida além da web. Por mais contato que eu tenha com amigos, familia e clientes, uma parte de mim havia esquecido como era divertido entrar numa livraria.
Como a outra loja era próximo do caminho de volta para casa, decidi tentar mais uma vez, por mais cansativo que fosse. Me lembrei de como os 120 minutos ida/volta no ônibus podem ser estressantes, e como uma boa leitura faz com que esse tempo passe rápido. E o tema do livro havia me fisgado. Um tópico que há algum tempo vem me incomodando, mas que eu não conseguia colocar em uma linha de raciocínio coerente.
Ao chegar na livraria depois de um bom tempo, decidi parar por alguns segundos e esquecer que, com a web, tudo ficou mais ágil, inclusive nossa convivência com outros seres vivos, e que o mundo não é um grande Google. Somos seres pensantes, que respiram, que se relacionam, e que, principalmente, sentem. A web é nossa ferramenta, não o contrário. Estamos nos tornando autômatos, párias sentimentais, nos deixando dominar diariamente pela avalanche de informação segmentada que a web nos envia segundo a segundo. Sou uma pessoa que trabalha com criatividade, e criatividade precisa de tempo, coisa que o Google não permite. Meu cérebro assimila a compreensão das coisas, não seus logarítmos. Parece que, diariamente, somos forçados a obedecer ao compasso rítimico digital do computador, sem chance de negociação. O ON do micro determina nossa conexão com o mundo, independente de quem está ao nosso lado. E o OFF do micro é nossa deixa para voltar e dormir, para apenas aguardar o novo ON do dia seguinte.
Estar conectado é vida. Hoje, com os smartphones e ipads, a impressão que dá é que se a web parar, tudo ruirá, inclusive nosso sistema vital. A impressão é que se a web parar, nosso coração parará de bater. Claro que entendo a importância da web, mas estamos deixando de raciocinar como seres pensantes, achando que tudo precisa ser na velocidade da internet. Pense: quantos compartilhar você deu no Facebook sem ter nem lido a matéria, só a chamada principal? Quantos textos de verdade você leu nos últimos tempos com a devida atenção? Nossos olhos estão sendo domesticados a julgar um texto pelo título. Estamos nos tornando superficiais em nossos argumentos, sendo que esta é a época em que temos mais informação a ser dividida. Estamos fazendo isso porque o que conta é a velocidade da informação, não o seu conteúdo.
Na livraria, me dirigi a uma atendente que, atenciosamente, me levou até a prateleira de psicologia. Disse algo sobre livros fora de ordem, algo que nem me importei. Simplesmente me agachei e comecei a procurar o exemplar. Depois de alguns segundos, eu mesmo o encontrei. Sorri, fiz uma piadinha sobre o fato, e fui retribuido com uma grande risada da atendente, seguido de um boa noite.
E fiquei pensando que nenhum site de compras poderia sorrir pra mim daquele jeito e nem me fazer sentir humano pelo que mais no representa: nossos sentimentos.
Mas que se o Google soubesse que isso era importante para mim, me enviaria um emoticon “dois pontos + fecha paragrafo” agradecendo pela minha compra, como se fosse a mesma coisa.









