RSS

Precisamos de outros heróis

25 ago

Começa o filme.

Um solitário carro corta uma estrada em um deserto que não lembra nenhum lugar e, ao mesmo tempo, lembra todos os lugares, principalmente em um futuro não muito muito distante, como ressalta a pequena frase que precede a primeira cena. O nome do motorista é Night Rider. Ele, insanamente, provoca a policia local roubando um carro e partindo pela estrada com um destino único: mostrar quem manda.Ele grita, esperneia, pisa descalço no acelerador. E não se preocupa nem por um minuto em salientar que a estrada é dele, e de ninguém mais.

A perseguição continua. Carros são destruídos, a frase PERSEGUIDOR do carro da polícia salta aos olhos do espectador. É um carro de busca. Night Rider não dá a mínima. Ele é uma máquina suicida. Nada vai detê-lo. Em questão de segundos, não há mais carro de busca. Os policiais entregam os pontos, e avisam um parceiro solitário.

- “Max, estamos 100% fora da brincadeira. Agora é com você.”

Calmamente, a câmera mostra a frase INTERCEPTADOR na traseira do carro de Max. A perseguição acabou. Começa a interceptação.

E qdo Night Rider, o “escolhido”, o conquistador, simplesmente vê que não é mais o carro de perseguição que está atrás dele, cai em um pranto silencioso e sincero. Ele chora, sua namorada ao lado não entende nada. “O que está errado?”. “Acabou… acabou…”

Night Rider sabe que não vai sobreviver ao Interceptador. E nem tenta se convencer do contrário. Segundos depois, Night Rider não existe mais, é só uma bola de fogo e ferro retorcido.

Esses são os 7 minutos iniciais de Max Max, de 1979. Há tempos esperava rever, mas acabei fazendo uma maratona com os 3 filmes durante a última semana. E quer saber? Deu uma tristeza pensar no cinema bunda mole que hoje assistimos.

Os dois primeiros Mad Max são viscerais, não tem medo da destruição. Não a promovem, mas chegam ao limite do que pode ser feito em termos de velocidade e dublês. Não havia computadores. Não havia truques. Eram só dublês amarrados em carros a 120km por hora. Era um cinema pop sem medo, que não tinha receio de causar vertigem e de colocar o espectador no centro da baderna toda. Mel Gibson comeu poeira, e muita. Motoqueiros com machados, armas, facas. Tudo isso causando uma inevitável sensação de medo, sem ser gore, nem apelativo nem explicito. Era um cinema de ação de coragem, de câmeras surreais e criatividade. Não há necessidade de mostrar o corpo queimado do amigo de Max, Goose, é só mostrar o terror nos olhos de Max ao vê-lo.”Esse NÃO É o Goose!”. Não há necessidade de mostrar as motocicletas atropelando a esposa e o filho de Max na estrada, é só mostrar o sapato de bebê caindo na passagem das motos. Atores que não tinham receio de cair no chão, de serem jogados por janelas de madeira, de pendurar-se em carros em movimento.

Eu tinha esquecido da sensação que é ver um filme de ação do caralho.

Não há truques. Não há cabos. Não há superpoderes. O que há são fraturas, suor, motos destruídas, areia, sol e óleo queimado e a sensação de que o cinema de ação já não existe mais. Bundamolice prevaleceu. Cinema de ação hoje é dança, ensaio e coreografia. Um balé digital que tenta emular cenas clássicas de quem realmente se machucou pra fazer uma cena. Cinema hoje é um bullying cerebral emulando realidade através de efeitos 3D. E eu duvido muito que um cara como Max saiba dançar.

O segundo é mais destruidor ainda, com as cenas de perseguição amplificadas e seguindo o curso normal da história proposta. A luta é por combustível, e quem o detém tem poder. Max não quer ter poder, só quer continuar vivendo. Em troca de combustível, ele vai ajudar um grupo de pessoas a passar um caminhão para uma “terra prometida”. Um garoto-fera com seu bumerangue afiado tem algumas das melhores cenas do filme, e é incrível como não há receio em colocar os protagonistas realmente na cena, dirigindo aqueles carros com partes faltantes, muitas vezes só carcaça e motor. Um passo em falso e a morte é certa. Está nítido, sem necessidade de câmeras lentas ou efeitos de fundo verde. Está ali, pra qualquer um ver e crer.

 

O terceiro, apesar de sua índole pretensamente “infantil” segue um caminho natural da história, mais uma vez. No primeiro, o apocalipse, no segundo, a busca pelo que valia mais, no terceiro, a organização de comunidades e o potencial uso da inteligência que havia sido relegada nos anteriores. O Homo Sapiens novamente em evolução. E, apesar da temática, não fica devendo em nada para seus sucessores no item de perseguição de veículos e perigo imediato. Inclusive, há crianças (sim, eu disse crianças), penduradas em veículos na sequência final de perseguição.

Cinema de ação sem medo e sem reticências. Sinopses concisas e que não precisam ser Shyamalaniadas. O Max é doido. Ponto. Vamos destruir alguns carros e entregar o que o público realmente espera: entretenimento para discutir e cenas para serem relembradas e discutidas na hora da saída do cinema. É sair com o coração na garganta, pensando que um deslize a mais na cena e fulano morria. Literalmente.

Me chamem de velho e saudoso. Mas me chamem de verdade, não me mandem SMS, e-mail ou tweet. Só coloquem as mãos em formato de concha ao redor da boca e gritem o mais alto que puderem.

 

Sobre Sandro Cavallote

Publicitário, profissional de criação e autor do livro “365 – Um guia prático para futuros profissionais de Comunicação”, tem mais de 15 anos de experiência na área. Aficcionado em cultura pop, desenvolve projetos de criação e design personalizados e exclusivos.
3 Comments

Publicado por em 25/08/2011 em Dicas de filmes

 

Tags: ,

3 respostas para Precisamos de outros heróis

  1. agleite

    09/09/2011 at 12:51

    Acabei de ver Lanterna Verde…sei bem do que voce ta falando.

     
    • Sandro Cavallote

      09/09/2011 at 17:29

      E eu ainda não vi o Lanternoso, mas já tenho N referências negativas.

      Mas eu vi Padre e, meu, sei lá o que dizer… :)

       
  2. doggma

    09/10/2011 at 18:09

    Caralho, que post foda. Cheguei a ficar meio perturbado com o início do texto. Há muitos anos que não assisto o primeiro filme e as memórias foram dragadas do córtex a cada linha visceral. Foi na veia. Isso é cinema que não se faz mais. Cinema com cojones. Nem uma mísera sequência de perseguição de carros os caras conseguem fazer hoje sem entuchar CGI no meio. Tão completamente engessados. E eunucos.

     

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.