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Arquivo do mês: março 2011

Eu e meus velhos Compact Discs

Uma pequena parte do todo.

Podem me chamar de velho, sem problemas, mas eu adoro CD.

Estava eu fazendo uma daquelas coletâneas que tanto gosto, jogando arquivo .mp3 pra lá e pra cá (sim, vc pode ser um colecionador de CD e usar arquivo MP3, porque para montar coletâneas extensas você pode converter sem problemas pra caber mais no próprio CD editável. Somos saudosos, não ogros) e fiquei pensando em como essa coisa do arquivo digital ajudou a deixar tudo mais rápido e ágil, mas está acabando com a graça real de se pegar um CD na mão, que é o encarte.

Pô, era sensacional pegar o encarte do CD cheirando a novinho depois de rasgar o maldito plástico com um clip ou algo pontiagudo, o que geralmente fazia você riscar a caixinha de acrílico, e retirar o encarte com todo cuidado no manuseio. As letras, o projeto gráfico, tudo era motivo de crítica ou admiração. Meu primeiro Afrociberdelia veio com um estojo laranja, que conservo até hoje. Titanomaquia veio num mini saco de lixo. O encarte de Melon Colie and the Infinite Sadness tem um dos projetos gráficos mais lindos que já vi. E haviam os CDs duplos, como o The Wall, que provavelmente iria chegar com a parte do encaixe já quebrada. Normal, a gente ficava puto na hora, mas passava por cima em questão de minutos por um encarte decente. E quando o encarte era ruim, havia a decepção inicial, mas nada que uma boa produção musical da banda não fizesse com que tudo isso fosse esquecido rapidamente. Foram muitos Mudhoneys neste esquema pra começar a filtrar melhor…

E mesmo ainda colecionando CDs originais, eu fico meio receoso com essa nova tecnologia, por mais prática que seja. Agora, depois da manipulação do MP3, eu ainda tenho a oportunidade de jogar uns 4 Giga de música num pendrive que fica pendurado na parte frontal do rádio. Fica feio, sem graça, completamente fora da estrutura, mas pra um fã da boa musicalidade, acabou imprescindível no dia a dia, principalmente no trânsito caótico de São Paulo. Pego meu porta-CDs e penso que todos os 20 discos que ali estão ocupariam uns 20% de um pendrive. Dá desânimo, mas não consigo ainda viver só do digital. Pelo menos enquanto bandas como Pearl Jam tomarem o devido cuidado com a produção visual do CD, meu dinheiro eles sempre vão levar, ainda mais porque vejo o download de discos mais como uma degustação, na verdade. Não se engane: devo ter mais de Terabyte de músicas, muitas delas já convertidas em compra de CDs originais pois valem a pena. Também já deixei de comprar muita coisa que, em outras épocas, compraria sem medo por causa do MP3, que me salvou principalmente do último disco solo do Chris Cornell. E eu nem comecei a falar ainda da falta que sinto de encontrar CD nas lojas. Garimpar é legal, mas viver de bacião da Americanas e busca errada no Submarino é um parto.

E pra você que está lendo e pensando “cara, que papo chato. Baixa tudo e pronto” eu só te digo uma coisa: você nunca deve ter sentido como é legal ter tido um álbum de figurinhas.

 
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Publicado por em 24/03/2011 em Música, Textos

 

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Sobre discrepâncias e intangibilidade



Outro dia estava pensando que meu cansaço devido ao trabalho estava me deixando com o vocabulário mais enxuto, exatamente porque me peguei pensando demais nas palavras discrepância e intangibilidade. Desculpa plausível para um publicitário que lida com criação e tem que rebolar no malabarismo corporativo, onde são colocadas a prova diariamente a relação entre criatividade e medo da inovação, além da constante busca  da mensuração mercadológica em projetos diversos. Big deal, coisa normal.

Mas o fato é que isso me preocupou, ainda mais porque comecei a usar as palavras com certa freqüência. Eu, chato que sou pela busca constante de reciclagem, me peguei repetindo em situações diversas. Ao notar que também usava fora do ambiente de trabalho, percebi que essa constante deveria ter um fundamento. Passei a olhar um pouco mais para o assunto, coordenando um pouco mais a linha de raciocínio. Deparei-me que ambas estão sendo utilizadas no limiar exatamente pelo momento em que passamos, física – emocional – psicologicamente.

Estamos vivendo num mundo de discrepâncias e intangibilidade. Pelo menos, na atualidade. Estão em todo o lugar, principalmente nos assuntos que sigo e me permito ser conhecedor. No cinema, temos as maiores bilheterias do cinema atual com Tropa de Elite 2 e Nosso Lar, diferentes em todos os aspectos, incrivelmente contundentes de formas adversas. Na música de massa, o cansaço e a preguiça do pretenso “rock colorido” VS. a chatice do estilo americano de vender mulher e carros. Na Literatura Best Seller vamos do novo do Padre Marcelo Rossi a Lobão, com a volta da Bruna Surfistinha correndo por fora. No lado televisivo, vemos que a TV Aberta deixa de ser pudica e adere ao movimento da baixaria que antes criticava, Carlos Massa que o diga. Hoje seu programa, nos dias de maior concentração hormonal, é uma pluma perante a novelas e programas de auditório. Some a isso a ascensão das Classes C e D ao grupo antes seleto de assinantes de TV a Cabo. Extremos e discrepâncias.

No lado do que não dá pra medir, pelo menos no que se refere a conceituação de mudanças, alguém aqui já imaginou uma notícia de cinema em que pudéssemos ler uma frase como “diretor abandona direção em decorrência dos últimos acontecimentos no país (terremotos, tsunami e emergência nuclear”, como bem lembrou meu amigo Fivo? Ver um pais a beira de um cataclisma nuclear como agora, sendo que seu povo sorri e “está feliz por ter conseguido passar por esta dificuldade”. Kha-Ga-Ka-dafi sendo literalmente achacado pela própria população? O boom do cinema indiano a produção de milhões de dólares? São todas notícias que, há a alguns anos, soariam como pura ficção, coisa de folhetim de Watchmen, sem sombra de dúvida. Não digo que esse tipo de divulgação nunca aconteceu, entretanto só agora sinto essa aura de tremendas mudanças e reais possibilidades de inversão de valores, o que causa toda essa potencialização da intangibilidade.

Tudo isso me dá uma impressão louca de que o mundo vai plantar bananeira em breve. Será que a minha estafa de trabalho é que está me dando essa sensação? Duvido muito disso porque, por mais que eu esteja cansado, chato comigo mesmo eu sempre sou.

 
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Publicado por em 17/03/2011 em Textos

 

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